23 August 2017

PÉRIPLO

 
Em Maplebeck, no Nottinghamshire, Darren Hayman ouviu contar a história do dono de um pub que, no final da noite, deixava o porco de estimação beber a cerveja que restava no fundo dos barris e encontrou-se com Judith que limpava as lápides do cemitério local com uma escova de dentes. Em Shapwick, Somerset, descobriu folhas de árvores presas aos troncos com pioneses coloridos. À entrada de Cromwell, um local saudou-o: “I’m Dennis, but they all call me Bill”. Num banco de jardim de Norton Le Clay, no Yorkshire, viu inscrito o nome de uma refugiada belga que para lá emigrara durante a guerra e, sobre ela, escreveu uma canção (“Come all you refugees and strays, come all you immigrants and waifs, come to our house and stay, you’re welcome”). Há aldeias tão pequenas que, mal se entra, já se está sair. Mas, em Tellisford, à beira de uma represa sobre o rio Frome, deu com um grande piquenique de jovens, que se banhavam no rio. Gravou-lhes as gargalhadas, o correr das águas e os mergulhos. East Norton parecia habitada por fantasmas e, no pub de Nether Kellet, havia a fotografia de uma equipa de futebol feminina do tempo da guerra. 


Viajou com Judy Dyble – a antecessora de Sandy Denny nos Fairport Convention – e a cadela Molly até Upper Slaughter, no Gloucestershire, e, após a sopa comunitária da tarde, na margem do Eye, escutou-a a dedilhar na auto-harpa um devaneio sobre a passagem do tempo. Wooley e Stretton En Le Field fizeram-no pensar em canções do espólio da English Folk and Dance Society que já tinha encontrado na Cecil Sharp House. No abrigo de uma paragem de camionetas, em Woodend (em cujo céu três aviões colidiram durante a segunda guerra mundial), alinhavou uma música que quase o fez reencarnar na pele de Ray Davies. Olhou para Chantry e teve a sensação de que era a aldeia que o observava a ele. É o "trailer" possível de Thankful Villages Vol. 2, segundo painel do tríptico de Darren Hayman iniciado no ano passado, dedicado a um périplo pelas 54 aldeias inglesas nas quais todos os homens que partiram para as trincheiras na guerra de 14/18 regressaram vivos à terra. Mais belíssimo documentário de rádio (e colecção de videos) com sonoplastia ficcionalmente sofisticada do que propriamente um convencional álbum de canções, as dezoito "thankful villages" que faltam ficam prometidas para o terceiro volume, no próximo ano.
Laura Marling - Live on KEXP

"I am philosophically committed to 'mechanistic naturalism', from which follows the conclusion that anything humans can do, machines can in principle do, too. In many cases we already know they can do it better. Whether they can do it better in all cases remains to be seen, but I wouldn’t bet against it. The precautionary principle should lead us to behave as though there is a real danger — a danger we should take immediate steps to forestall. Unless, that is, we think robots could to a better job of running the world than we can. And a better job of being happy and increasing the sum of sentient happiness" (Richard Dawkins)

21 August 2017

O PAÍS DOS ZEZÉS (LVI)

... portanto, a evitar
O ELOGIO DO ERRO

  
Num dos 115 cartões das “Oblique Strategies”, de Brian Eno (inspiradas nos “Event Scores” de George Brecht, um dos vanguardistas do Fluxus), lê-se “Honor thy error as a hidden intention”. Essencialmente o mesmo que, segundo Herbie Hancock, Miles Davis lhe terá dito depois de, durante uma interpretação de "So What", ele ter tocado no piano um acorde errado (em torno do qual Davis continuou a improvisar de modo a torná-lo “certo”): “Quando tocas uma nota errada, é a nota seguinte que decide se isso foi bom ou mau. Os erros não existem, existem apenas oportunidades para improvisar”. Em 2010, num documentário da Arena TV, Eno pegava no assunto por outro ângulo, o da obsessão pela eliminação de toda e qualquer imperfeição que a tecnologia actual permite: “A tentação da tecnologia é polir tudo, homogeneizar tudo, até que todos os compassos soem iguais. Até que não reste nenhum vestígio de vida humana”.



E, quatro anos depois, a propósito de uma "box-set" de Fela Kuti que compilou para a Knitting Factory Records, acrescentava: “Actualmente, podemos fazer e refazer tudo. Mas muitos dos discos de que mais gostamos são aqueles que não foram infinitamente retocados de modo a ficarem perfeitos. A pergunta que todos fazemos é: será que fica melhor assim? A música ganha, realmente, alguma coisa com isso? É uma tentação a que é muito difícil resistir. Se, numa gravação, descobrirmos uma nota errada, no passado dir-se-ia, é uma grande interpretação, fica mesmo assim. Agora, reafinamo-la. E interrogamo-nos sempre: ao fazer a correcção, o que teremos perdido da tensão daquela performance, da sensação de humanidade, de vulnerabilidade, de verdade orgânica?” O mais recente contributo para o debate veio de J. Willgoose, Esq., máquina de pensar dos Public Service Broadcasting, autores do recente e óptimo Every Valley. Numa TEDx Talk de Junho do ano passado, em Londres, cujo tema era “Live music should go wrong”, reflectindo sobre o aborrecimento que podem ser concertos nos quais, noite após noite, tudo se repete com uma precisão mecânica, foi mais longe: “O crime é uma expressão da liberdade. Isto é, não é possível existir uma sociedade livre sem que exista a possibilidade de serem perpetrados crimes horríveis. A única sociedade em que não poderia existir nenhum crime seria aquela em que também não existiria nenhuma liberdade. Esse mesmo princípio pode ser aplicado à música ao vivo: deve conter o potencial para o erro, a possibilidade de que alguma coisa imprevisível aconteça e de que algo corra mal”.
Radicais livres (LIV)

 
(ver aqui)
Chrysta Bell - "I Die" 
(C. Bell/D. Lynch/D. Hurley)

18 August 2017

... e os finlandeses também querem...
METRALHA


No excelente documentário de Göran Olsson, The Black Power Mixtape 1967–1975 (2011), numa entrevista dada na prisão de Marin County, em 1972 – onde esteve detida 16 meses, em isolamento, por crimes de que acabaria absolvida –, a académica e militante dos direitos cívicos, Angela Davis, à pergunta sobre se aprovava os métodos violentos dos Black Panthers, quase perplexa, responde: “Cresci em Birmingham, no Alabama. Muitos amigos meus foram mortos por bombas colocadas pelos racistas brancos. Era muito pequena mas ainda me recordo do som das bombas a explodirem do outro lado da rua. Bull Connor, o governador da cidade, ia para a rádio fazer declarações como ‘os pretos mudaram-se para um bairro branco, não se admirem se esta noite correr sangue’ e o sangue corria mesmo. E vem, agora, perguntar-me se eu aprovo a violência?... Isso só quer dizer que não faz a menor ideia da violência de que os negros foram vítimas neste país desde o dia em que o primeiro negro foi raptado na costa de África”



Lee Bains III é branco mas também natural de Birmingham. E, aparentemente, tão assombrado pela história e memórias da cidade quanto o Springsteen inicial pela New Jersey natal. Não é o único ponto de contacto: não haverá algo de matricialmente springsteeniano em chamar-se Lee Bains III + The Glory Fires? E, por exemplo, “The boys demand to know if he’s white or black, and squint into his sun-browned face, framed with black curls of hair, he sighs, and, with his finger, draws sprawling maps of the Middle East into the hot damp heavy air, ‘So, are you white or black?’ His mouth falls open, his eyes trace the patchy skyline, frayed by the evening sun, a green-neon crucifix crowns the steeple where, Sundays, his folks recite prayers in the Lord's dead tongue”, não soa curiosamente familiar e, ao mesmo tempo, indissociável da cidade que, pelos motivos que Angela Davis explica, ficou conhecida por “Bombimgham”? Youth Detention (Nail My Feet Down To The Southside Of Town) é, então, uma devastadora metralha sonora onde coabitam igualmente Clash, Hüsker Dü, R.E.M.,e o Costello que expelia bílis, unidos por uma convicção (“Don’t you tell me, ‘It’s only rock’n’roll’ when I’ve seen it wrestle truths from noise”) e um desígnio: “I don’t want to be a whitewash, I don’t want to be an absence, I don’t want to be the great silence”.