29 February 2008

AINDA DE GARRAS DE FORA



Morrissey - Greatest Hits

A 4 de Dezembro de 2006, nos bastidores da Metro Radio Arena de Newcastle, Morrissey concede uma entrevista de dez minutos ao seu jovem “director de campanha” para a eleição do Britain’s Greatest Living Icon, do “Culture Show” da BBC-2 (em que integrou a “shortlist” juntamente com David Attenborough – o vencedor final – e Paul McCartney). Toda ela vale a pena ser vista no YouTube mas o que realmente agora importa encontra-se logo nos primeiros dois segundos: irradiando felicidade, o entrevistador saúda-o com um “So, Morrissey, it’s good to meet you!” ao que ele, com um franzir de sobrolho verdadeiramente intrigado, responde “Why?...”.



Poderá ser uma encenação de falsa modéstia estudadamente cultivada mas, ainda que o seja, vale a pena recordar que talvez nem Leonard Cohen, em “Dress Rehearsal Rag”, terá sido capaz de escrever algo de tão cruelmente auto-humilhante como Morrissey, no texto de “Let Me Kiss You”: “Close your eyes and think of someone you physically admire and let me kiss you, then you open your eyes and you see someone that you physically despise, but my heart is open, my heart is open to you”. De facto, dificilmente se descobrirá alguém que, como Morrissey, generosa e frequentemente, consiga, em simultâneo, aspergir tanta bílis sobre si mesmo e o universo à volta e costurar isso sob a forma de canções pop de corte clássico.



É verdade que, desde a dissolução dos Smiths, raramente recuperou aquela imponderável espuma sonora na qual Johnny Marr envolvia o seu literato e requintado arsénico verbal. Mas, se o título deste duplo Greatest Hits (catorze faixas de estúdio mais oito de um concerto no Hollywood Bowl) deve ser levado à letra – todas as canções, maioritariamente extraídas dos últimos álbuns, residiram no top 20 de singles britânico e nove delas treparam até aos dez lugares cimeiros –, é justo reconhecer que, mesmo trocando continuamente de parceiro de escrita (Stephen Street, Mark Nevin, Boz Boorer, Alain Whyte), sem demasiados passos em falso terrivelmente comprometedores, a projecção pública de Morrissey, a solo, excedeu já em muito tudo aquilo que, para além da lenda, alguma vez os Smiths atingiram.



E é aqui que dois pontos não poderão deixar de ser sublinhados: tanto Street como Nevin, Boorer ou Whyte (com inevitáveis diferenças menores) acabaram por operar mais como “tradutores” da mesma “morrisseyness” que Marr havia identificado do que na qualidade de proponentes de hipóteses estéticas alternativas; nem por um só instante ao Morrissey que, logo no início do seu percurso individual, no apropriadamente intitulado Viva Hate (1988), dedicara a Margaret Thatcher as gentis palavras “the kind people have a wonderful dream, Margaret on the guillotine”, ocorreu a ideia de encolher as garras.



Talvez inevitavelmente, de forma desordenada, contraditória e ambígua: acusado de racismo, xenofobia e simpatia por políticas nacionalistas de extrema-direita, respondeu. em “Irish Blood, English Heart” (de You Are The Quarry, 2004), “I’ve been dreaming of a time when to be English is not to be baneful, to be standing by the flag not feeling shameful, racist or partial”; apanhado de surpresa, num palco em Dublin, pela notícia da morte de Ronald Reagan, em 5 de Junho de 2004, “bigmouth strikes again” e confessa que teria preferido que fosse George W. Bush o falecido (há semanas, deu a sua bênção a Barack Obama e, após ter alfinetado “Billary” Clinton, disparou “The World Is Full Of Crashing Bores”), acusando, meses mais tarde, os serviços de imigração norte-americanos de se comportarem com “a amabilidade das SS hitlerianas”.



Porque, no fundo, o conflito da personagem a quem o juiz que decidiu sobre a querela autoral que o opôs ao ex-Smiths, Mike Joyce, classificou como “desleal, truculento e de pouca confiança” começa dentro de si mesma (“I bear more grudges than lonely high court judges”), derrama-se sobre o mundo (“This is the coastal town that they forgot to close down, Armageddon, come Armageddon, come Armageddon, come!”) e nunca saberemos ao certo onde começa uma e acaba o outro. (2008)

27 February 2008

EM ROMA, SER ROMANO



Morrissey - Ringleader Of The Tormentors

Versão oficial: Morrissey, após a emigração para Los Angeles, regressou à Europa, fez de Roma uma segunda pátria, descobriu, finalmente, a paixão e o sexo (sim, o S.E.X.O.) e, com as hormonas em turbilhão, gravou a sua primeira verdadeira obra-prima pós-Smiths. Facto: é verdade, Ringleader Of The Tormentors foi gravado em Roma e Morrissey parece ter desenvolvido uma autêntica fixação por tudo o que tenha a sonoridade "cantabile" da Bella Italia. Em "You Have Killed Me", ele entrega-se, deleitado, ao "name-dropping", declarando "Pasolini is me, Accattone you'll be, I entered nothing and nothing entered me, till you came with the key (...) Visconti is me, Magnani you'll never be" ou "Piazza Cavour, what's my life for?", "Life Is A Pigsty" será uma alusão oblíqua ao Porcile do próprio Pasolini, "Dear God Please Help Me" abre com as palavras "I am walking through Rome with my heart on a string", Ennio Morricone foi convocado para os adereços orquestrais e é mesmo legítimo suspeitar-se que a escolha de Tony Visconti para produtor terá tido menos a ver com o seu ilustre currículo de produtor do Bowie "glam" do que com o apelido. Por outro lado, parece também confirmar-se que, vinte e tal anos depois, Morrissey saberá, enfim, a resposta para uma velha pergunta: "Does the body rule the mind or does the mind rule the body?".



Optou, sensatamente, pela primeira hipótese, saíu — digamos — do armário daquela estudada e ambígua pose de casto celibato assexual e perdeu a vergonha de escrever frases como "there are explosive kegs between my legs" ou (numa interessante reiteração de um certo "leg fetichism") "now I'm spreading your legs with mine in between". Não esquecendo, claro, a metáfora um tanto "canalizador-porno" da "key", na tal história do "I entered nothing and nothing entered me". Isto é, a desanimada proclamação do anterior You Are The Quarry, "the world is full of crashing bores and I must be one 'cause no one ever turns to me to say take me in your arms and love me", esgotou o prazo de validade e, se o Morrissey da idade madura não se terá exactamente transformado num Príapo esfaimado, pelo menos, já não achará demasiado exótico praticar aquilo que é habitual, por mútuo consentimento, entre adultos. Onde os factos entram seriamente em conflito com a versão oficial é no estatuto de Ringleader Of The Tormentors: You Are The Quarry poderia ainda não ser o "opus magnum" do Wilde proletário de Manchester mas incluía óptimas canções como "Irish Blood, English Heart", "I'm Not Sorry", "The World Is Full Of Crashing Bores", "You Know I Couldn't Last" e "First Of The Gang To Die". Aqui, à excepção de "You Have Killed Me", "Dear God Please Help Me" e "The Youngest Was The Most Loved" (e esta apenas porque é uma aceitável "remake" do período-Smiths), é tudo um pouco "business as usual" em registo rock+tempero "glam"+vela orquestral enfunada. O Morrissey-violinista-de-casaca que ornamenta uma capa em pastiche do grafismo Deutsche Grammophon bem se pode fazer à condição de clássico ou brincar aos pequenos Freuds em "The Father Who Must Be Killed" que não será certamente por isso que o seu novo álbum consegue voar a enorme altura. (2006)

26 February 2008

A CONVERSATION ON INFORMATION - parte II *
(entrevista de Patrick Coppock a Umberto Eco,
Fevereiro de 1995
)

* (treze anos depois, isto ainda faz sentido?)



Yes, well then, what do you think about the idea of these personal information filters. This idea that you can kind of make a personal profile, and the system will search Internet on the basis of this?

This is what I call the art of decimation...

Decimation?

Decimation. You kill only one person out of ten...

He gestures towards the well-filled bookshelves again.

The number of books that only concern my specific domain, not to speak of the other ones that I receive weekly certainly, exaggeratedly, overwhelms my reading...

Your capability, capacity?

...my capability, my time. If you have a certain experience you are able to... well, you can make a very random decimation. On this or that subject for instance, there may be no more than ten possible new ideas. It is rare that that is the case.

And the working hypotheses you make are based on these?

So .. if I read only one out of ten books, probably there will be an idea in there I can find, and if it is not there, then it will be in the next group of ten books that I pick up. But this is a very random thing.



But it is also very much based on your past experience, obviously?
Oh, sure, it is random, but based upon past experience.

He reaches for a book from his desk and begins to thumb through it.

OK, now I am able to open this at the first page, to look at the summary, to see the bibliography and to understand if the fellow is reliable or not; if there is something new there or not. And since I have long experience, my decimation is oriented. I sense it is better that I read this, and not that etcetera.

So you are able in a way to recognise newness, or innovation?

In a way, in a way. I can commit mistakes of course, but if I make a mistake today, I probably won't do that tomorrow. Possibly I may choose to disregard some book or other and that may be a mistake, but the next week I will come across yet another book, and so on. But a student of 20 years old, or even of 30 does not have this kind of filtering ability. We have to invent a practice, a theory. A practice or training in decimation.



Well now, how do we do that?

Eco leans forward eagerly in his chair.

Well, it still has to be invented. There must be some rules. There are some very elementary rules such as: control the dates of the bibliography for instance. If you are working on a certain subject you may find many references from 1993 and 1994. But in relation to other subjects finding only references from 1993 and 1994 might be negative, you ought to be finding some older dates.

Exactly.

So if you read a book on Kant and you have only a bibliography from the nineteen-nineties then this is suspect. The author is working from secondary sources. If you are reading a book on hypertext and you find an old bibliography then this is suspect, because every day there is something new about this particular field. So there may be some first, elementary rules you can use in order to isolate certain things immediately.

(o resto aqui)

(2008)
OUTRA UTOPIA COMUNISTA



Na perspectiva das classes A e B.* Como (quase) sempre.

*refiro-me à "Gulbenkian em cada esquina", não à Super Bock.

(2008)
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XV)

A ANGÚSTIA DO MÚSICO POP PERANTE A ETERNIDADE


Sting - Songs From The Labyrinth



Paul McCartney - Ecce Cor Meum

Não é uma questão de falta de respeitinho pelos superiores valores da música erudita nem de abate público de nenhuma vaca sagrada. Sting podia ter pegado nas peças do compositor isabelino John Dowland, tê-las salamizado em fatias muito finas, recitado os textos na companhia do seu rapper preferido, substituído o alaúde por didgeridus e chamado uma matilha uivante de praticantes de "thrash metal" para se ocupar dos coros. A equação não seria fácil de resolver mas aquilo que, em última análise, importa — resulta ou não resulta? — ficaria claramente definido. O que Sting nunca deveria ter feito era imaginar que a ele, sapateiro (apenas armado da própria voz e do alaúde de Edin Karamazov), lhe poderia ser autorizada a fantasia de tocar rabecão. Isto é, arriscar-se a combater nos mesmos termos de Alfred Deller, Emma Kirkby ou Andreas Scholl, atletas de alta competição no território-Dowland, em comparação com um pobre Gordon Sumner, amador dos distritais. A raiz do problema tem uma designação cientificamente aprovada: a angústia do músico pop perante a eternidade.


Nem sempre se manifesta de forma aguda mas, quando isso acontece, não é bonito vermos alguns dos que justamente admirámos como belíssimos animais pop fazerem a triste figura de candidatos ao reconhecimento "sério" da academia e (com imensa sorte) a uma nota de pé-de-página no Grove Dictionary Of Music. No número de Outubro do "BBC Music Magazine", Sting não descansa enquanto não revela que "Whenever I Say Your Name" (do álbum de 2003, Sacred Love) "é inteiramente baseado num prelúdio de Bach" e que "Russians" (de Dream Of The Blue Turtles, 1985) se inspirou na Suite do Tenente Kijé, de Prokofiev. A verdade é que, se algo lhe devemos, é do tempo dos Police, quando ele e Stewart Copeland descobriam Bob Marley e Desmond Dekker. Songs From The Labyrinth não só não o inscreverá na História da Música (atenção às maiúsculas!) como demonstra eloquentemente que o possuidor de uma voz com a agilidade e a elegância da cintura de Tony Soprano teria feito bem melhor se reservasse para exclusivo uso doméstico — sempre desenjoa do tantrismo... — a investida contra as requintadas composições de Dowland, durante quatrocentos anos pouco habituadas a tão maus tratos.


Outro que destila suores frios quando supõe que será para todo o sempre encarado como o autor de "Obladi Oblada" é Paul McCartney. Ter sido, na altura certa, o mais experimentalista dos Beatles não lhe basta (não só um mas vários "obladis" lhe pesam na consciência estética), daí que, desde há anos, ciclicamente, se sinta na obrigação de amofinar o universo com um novo e portentoso "opus" sinfónico (ou coral-sinfónico), cunhado no molde do neo-classicismo britânico mais bacoco e debruçado sobre os "grandes temas" e as "grandes inquietações" que, desde a Vénus de Willendorf, atormentam o sapiens sapiens. Ecce Cor Meum ("Vede o meu coração") ocupa penosos sessenta minutos com um desfile de lugares-comuns do "bê-a-bá" do aprendiz de compositor "erudito" não informado da existência do século XX e, muito pior do que isso, abala irremediavelmente a nossa confiança nas ilustríssimas instituições universitárias britânicas: a encomenda da obra, há oito anos, deveu-se a Anthony Smith, presidente do Magdalen College, de Oxford. Pela amostra, mais um clube do qual, mesmo que nos aceite como sócios, nunca desejaremos fazer parte. (2006)

25 February 2008

QUARENTENA LEVANTADA



Morrissey - You Are The Quarry

O divórcio Morrissey/Johnny Marr que pôs fim à história musical dos Smiths foi um daqueles em que, definitivamente, nenhuma das partes em litígio saiu a ganhar. Porque os Smiths, como tantas outras bandas antes e depois deles, eram mais um argumento a insuflar vida no velho cliché de que, muitas vezes, o todo é francamente superior à soma das partes. Sem Morrissey, Marr era pouco mais do que um óptimo guitarrista pop da escola "jangling" e isso, só por si, é sempre pouco; sem Marr, Morrissey ficou nas mãos de roqueiros competentes mas incapazes de oferecer leveza melódica e harmónica às suas canções. Pelo que, foi maior a surpresa de, apesar de tudo, Morrissey, a solo, até ter conseguido publicar dois álbuns francamente bons (Viva Hate, 1988, e Vauxhall And I, 1994) do que constatar que, durante quase toda a década anterior, os primeiros parágrafos do seu epitáfio artístico começaram a ser redigidos na suspeita que o exílio californiano apenas antecipava a entrada para o sarcófago. Ou não. Porque, não sendo de todo o "come back" glorioso que algumas trombetas anunciam, You Are The Quarry levanta, pelo menos temporariamente, a quarentena quanto à extinção do velho Mozzer como "songwriter" com quem se deve contar.



O que, em substância quer dizer que, num total de doze, contém cinco das melhores canções que Morrissey já escreveu ("Irish Blood, English Heart", "I'm Not Sorry", "The World Is Full Of Crashing Bores", "You Know I Couldn't Last" e "First Of The Gang To Die", esta, sem dúvida, a fazer-se ao estatuto de "clássico"), onde ou se furta ou consegue mesmo tirar partido da matriz rock demasiado convencional do quarteto instrumental que o acompanha. Significa também que o peculiar "wit and wisdom" dos textos continua aceso e que voltamos a ter direito a tiradas como "I've been dreaming of a time when the English are sick to death of Labour and Tories and spit upon the name Oliver Cromwell and denounce this royal line that still salute him", "she told me she loved me which means she must be insane", "policewomen, policemen, silly women, taxmen, uniformed whores, educated criminals, work within the law, the world is full of crashing bores and I must be one 'cause no one ever turns to me to say take me in your arms and love me" ou aquela que não lhe há-de fazer muitas amizades entre os colegas "lock-jawed pop stars thicker than pig-shit, nothing to convey, so scared to show intelligence it might smear their lovely career". É menos de metade do álbum e o resto fica claramente abaixo do par (sejamos clementes e façamos por ignorar alguns pavorosos arranjos de sintetizadores). Mas estas cinco são tão verdadeiramente boas que só apetece dizer "Welcome back, Morrissey!".

(2004)
BICÓZE DIZE ECT IZAECT DETUIDU (I)



O chamado "Inglês Técnico" (15 valores, Universidade Independente), variante caucasiana do ebonics. Detssa dablepraud forazz.
(roubado daqui)

(2008)

24 February 2008

STREET ART, GRAFFITI & ETC (XIII)

Sevilha, Espanha, 2008
(da arte da caligrafia e do palimpsesto)










STREET ART, GRAFFITI & ETC (XII)

Sevilha, Espanha, 2008



















(2008)

22 February 2008

IVY LEAGUE POP



Vampire Weekend - Vampire Weekend

A Ivy League é constituída por oito universidades da Costa Leste dos EUA – Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Pennsylvania e Yale – que, em consequência do seu elevado nível de exigência académica (todas se situam no top do ranking universitário do “U.S. News & World Report”), converteram a própria expressão “Ivy League” num sinónimo de elitismo, selectividade e excelência. O Upper West Side é um bairro de Manhattan que, tendencialmente, atrai a burguesia novaiorquina afluente (o rendimento médio familiar ultrapassa largamente a média da cidade), liberal e com inclinações artísticas. Cape Cod é uma península localizada na costa do Massachusetts, estância de férias de Verão preferida de “ricos e famosos”, caso, desde há quatro gerações, da dinastia-Kennedy. Fim da lição de geografia-socio-política norte-americana e passagem de testemunho instantânea para os Vampire Weekend: Ezra Koenig (cantor e guitarrista), Chris Tomson (baterista), Chris Baio (baixista) e Rostam Batmanglij (produtor e teclista), quatro recém-graduados da “Ivy Leaguer” Columbia University – no Upper West Side –, ainda durante o tempo da faculdade, formam uma banda que, segundo eles mesmos facilmente confessam, pratica um híbrido musical que designam alternativamente como “Upper West Side Soweto”, “Cape Cod Kwassa Kwassa” ou “Campus and Oxford Comma Riddim”. Tradução: se, com os Beirut, Zach Condon se imaginou, sucessivamente, zíngaro balcânico, boémio parisiense e as duas coisas ao mesmo tempo, por que motivo não poderiam quatro moços absurdamente betos mas eruditos e de impecável gosto musical, nas suas camisas Ralph Lauren, sapatinhos de vela e polos Lacoste, inventar aquela variedade de afropop ao som do qual, numa das “short stories” de Salinger, Franny e Zooey Glass mui alegremente dançariam?



Não avancemos, porém, tão rapidamente: se, desde que o “buzz” na Internet à volta dos Vampire Weekend arrancou, não há site nem blog que não se sinta na obrigação de referir Graceland, de Paul Simon, como trampolim primordial para a música da banda (o que até é rigorosamente verdade e uma faixa como, em particular, a propriamente dita “Cape Cod Kwassa Kwassa” não engana ninguém), é preciso reparar que a paleta de cores é consideravelmente mais ampla. Eles, tal como Zach Condon se referia à música dos filmes de Kusturica e do Taraf de Haïdouks, recordam-se que tudo terá começado com a escuta de um álbum oriundo de Madagascar e acrescentam-lhe Ladysmith Black Mambazo, Kanda Bongomen, Orchestra Baobab, Beethoven, a Band, Elvis Costello e os Squeeze. Mas nós que, por estarmos de fora, ouvimos, de certeza, muito melhor do que eles, apercebemo-nos perfeitamente de que, no tubo de ensaio estético onde esta aventura sonora se gerou, outros reagentes – Talking Heads, Feelies, Orange Juice, bastante ska, highlife e pós-punk, doses homeopáticas do que de melhor conseguiram extrair dos despojos dos Police e apenas o justo q.b. de “classicismo” tal como os Arcade Fire o supõem – se encontravam em presença.



Lancem-se, pois, com inteira justificação, os foguetes: nesta impuríssima obra-prima do género “fake” (que, recuperando o formato pop ideal, não chega aos quarenta minutos de duração), por entre linhas de baixo pneumáticas, motivos de guitarra aracnídeos, violinos barrocos e sobressaltos polirrítmicos de percussão, Louis Vuitton rima com Reggaeton e Benetton, polemiza-se civilizadamente sobre correcta pronúncia e pontuação (“Who gives a fuck about an Oxford comma? I climbed to Dharamsala too, I met the highest lama, his accent sounded fine to me”), personagens que nunca respondem por nomes próprios desagradavelmente comuns como Bill ou Jack mas, sim, Blake ou Walcott melancolizam irónica e suavemente sobre as agruras da vida sentimental no “campus”, arquitectura e turismo cultural e, cereja sobre o bolo, com a elegância que seria de esperar, no refrão de “Kwassa Kwassa”, não se esquecem de exercer o imprescindível auto-sarcasmo quando cantam “But this feels so unnatural, Peter Gabriel too”. Pode não se gostar muito destes tipos? (2008)

21 February 2008

DEUS NO EXÍLIO



One Plus One/Sympathy For The Devil - real. Jean-Luc Godard, 1968

Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Bill Wyman e Nicky Hopkins (Brian Jones, já num limbo muito privado, é quase uma figura ausente) deambulam pelo estúdio numa pausa das inúmeras "jams" que acabariam por dar origem a "Sympathy For The Devil" e, sobre as imagens, em "voice over", escuta-se uma narrativa de ficção política alucinada na qual Nixon, no Politburo, examina os cadáveres de Dubcek e Guevara, Lyndon Johnson vê um filme de Warhol, o papa Paulo VI protagoniza uma cena tórrida com a bela venezuelana Pepita e Grace Kelly e Salazar trocam mimos.



É um dos núcleos de cristalização da não-narrativa de One Plus One, o filme de Jean-Luc Godard que, em contraponto com os acontecimentos de Maio de 68 em Paris e com as várias sublevações políticas e culturais que, ao mesmo tempo, ocorriam nos EUA e na Europa — Black Power, hippies/yippies, oposição à guerra do Vietname —, pretendeu erigir um duplo discurso político/musical contraditório, provocador, paradoxal. Cerca de quarenta anos depois, dever-se-à acrescentar também patético, demagógico e grotescamente datado. Porque, independentemente do lugar que ao autor de À Bout de Souffle está, sem dúvida, garantido na história do cinema, é impossível não ver esta obra do Godard "maoísta" sem, pelo menos (hipótese generosa), um pronunciado sorriso irónico perante tão integral conglomerado de todo o kitsch político e "contracultural" das décadas de 60/70. Sempre com os Stones em fundo e quase como separador, três outros eixos sustentam One Plus One: num cemitério de automóveis, um grupo de militantes Black Panther, por entre a sucata, vomita imprecações contra o Ocidente, em paralelo com o fuzilamento de mulheres brancas (apesar de o seu porta-voz confessar que "adora brancas e odeia pretas"), enquanto declara que "o nosso inimigo é o branco";



numa loja de revistas pornográficas — e, aí, há que saborear a deliciosa ingenuidade das ilustrações porno da época —, o vendedor recita passagens do Mein Kampf, de Hitler, que são pagas com a saudação nazi e o repetido esbofeteamento de dois jovens que, imediatamente, gritam "Paz no Vietname!" ou "Viva Mao!"; uma figura feminina, Eve Democracy, vagueando por um bosque, é entrevistada acerca de temas trepidantes como "o orgasmo é a única altura em que não consegue enganar a vida?", "para ser um intelectual revolucionário a única alternativa é deixar de ser intelectual?", "acha que a droga pode ser uma forma de jogo espiritual?" ou "será que o Diabo é Deus no exílio?". Há, certamente, uma alegoria implícita (o Lúcifer que Jagger — ícone da "revolta juvenil" — corporiza seria esse anti-Deus forçado ao exílio pela burguesia "fascista" e opressora) mas, nesta sequência de quase "cartoons" involuntariamente clownescos, pelo meio de muitas outras, uma falha lógica sobressai: quando o assanhado activista do Black Power acusa a pop dos "brancos de classe média a precisar de cortar o cabelo" de ser "uma versão urbana do rock'n'roll roubado aos negros tal como a Motown de Detroit é uma versão manhosa de todo o R&B e gospel", não deveria estar ele a pensar... nos Rolling Stones? Provavelmente, Godard responderia, citando Mao, que as contradições são o motor da revolução. Exactamente da mesma forma que não teve problemas em admitir que, a despeito de toda a sua transbordante retórica marxista, nunca tinha lido Marx.

(2006)
VAMPIRE WEEKEND - Live in the streets of Paris


"Walcott"/"One (Blake's Got A New Face)"


"Mansard Roof"


"Kids Don't Stand A Chance"/"Oxford Comma"

(Vive La Blogothèque!)

(2008)
O MANIFESTO COMUNISTA
21 de Fevereiro, 1848



(2008)

20 February 2008

VAMPIRE WEEKEND - "Oxford Comma"



Who gives a fuck about an Oxford comma?
I've seen those english dramas too
They're cruel
So if there's any other way
To spell the word
It's fine with me, with me

Why would you speak to me that way
Especially when I always said that I
Haven't got the words for you
All your diction dripping with disdain
Through the pain
I always tell the truth

Who gives a fuck about an Oxford comma?
I climbed to Dharamsala too, I did
I met the highest lama
His accent sounded fine
To me, to me



Check your handbook
It's no trick
Take the chapstick
Put it on your lips
Crack a smile
Adjust my tie
Know your boyfriend, unlike other guys

Why would you lie about how much coal you have?
Why would you lie about something dumb like that?
Why would you lie about anything at all?
First the window, then it's to the wall
Lil' Jon, he always tells the truth

Check your passport
It's no trick
Take the chapstick
Put it on your lips
Crack your smile
Adjust my tie
Know your butler, unlike other guys

Why would you lie about how much coal you have?
Why would you lie about something dumb like that?
Why would you lie about anything at all?
First the window, then it's through the wall
Why would you tape my conversations?
Show your paintings
At the united nations
Lil' Jon, he always tells the truth

(2008)

19 February 2008

A CONVERSATION ON INFORMATION - parte I *
(entrevista de Patrick Coppock a Umberto Eco,
Fevereiro de 1995
)

* (treze anos depois, isto ainda faz sentido?)



A chain-smoking and jovial Umberto Eco receives me in his crowded, untidy but cheerful little office at the Institute for Communication Studies at the University of Bologna. A bay-window opens out onto a tiny balcony overlooking the garden of the villa where the institute has its offices and library. The walls of the office are covered with rows of well-filled bookshelves; a sofa along one wall is full of piles of papers, books and articles, a modest writing desk hidden under even more books and papers. In one corner of the room is an IBM 486 clone with Windows, a new article or book obviously in progress on the screen. Eco offers me a chair in front of his desk. In advance I had given him a list of some possible issues we might discuss so he would have some idea of what was on my mind: computer technology, the Internet community and processes of cultural change. I begin by asking:

Professor Eco, you're a man of letters, a writer, philosopher, a historian. On the desk beside you is a computer. Is modern computer technology actually functional for you as an author and literary researcher?

Eco glances over at the computer, smiles, then nods thoughtfully:

Yes, but sometimes the computer can also give paralysing results. I will give you an example: I was invited by Jerusalem University to a symposium whose theme was the image of Jerusalem and the temple as an image through the centuries. I did not know what to do on this particular topic. Then I said to myself, well OK, I have worked with stuff from the beginning of the Middle Ages; my dissertation was on Thomas Aquinas.

He points to the rows of well-filled bookshelves on my left...

Here I have all the works of Thomas Aquinas with a reasonably good index, and I looked there to see how many times he quoted Jerusalem and tried to say what use he made of the image of Jerusalem. Now, if I only had these books - well, that index is a reasonable index which focuses only on the larger, more intensive treatments of the word 'Jerusalem' - I would have found say 10 or 15 tokens of 'Jerusalem' which I would have been able to examine. Unfortunately I now have the Aquinas hypertext...

He glances again at the computer in the corner...

and there I found, that there were - well I don't remember the exact number - but there were round 11,000 or so tokens...

Oh my God!

Well at that point I quit!



Yes, that's far too much material at one time, obviously.

Working with 11,000 references is just impossible. That's far too many.

So the system you use doesn't 'filter' well enough in other words?

I cannot manage to scan as many as 11,000 tokens. Now, if I had only my old traditional limitations then I would probably have done something more or less reasonable on that particular topic.

That's because the human person who is searching does it in a kind of sensible, intuitive way, whereas the computer just does it in a very mechanical way and just picks out every single example?

My theory is that there is no difference between the Sunday New York Times and the Pravda of the old days. The Sunday New York Times that can have 600 or 700 pages altogether really just contains old news fit to print. But one week is not enough to read a number of the Sunday New York Times. So therefore, the fact that the news items are there is irrelevant, or immaterial, because you cannot retrieve them. So what then is the difference between the Pravda, which didn't give any news, and the New York Times which gives too much? Once upon a time, if I needed a bibliography on Norway and semiotics, I went to a library and probably found four items. I took notes and found other bibliographical references. Now with the Internet I can have 10.000 items. At this point I become paralysed. I simply have to choose another topic.



So information overload and this extreme, non-intuitive selection of information is the main problem?

Yes, we have an excessive retrievability of information. It is neither ironical nor paradoxical, I think, what has happened with Xerox copies.

Eco picks up a pile of papers from the desk in front of him and waves them.

Once I used to go to the library and take notes. I would work a lot, but at the end of my work I had, say, 30 files on a certain subject. Now, when I go into the library - this has happened frequently to me in American libraries - I find a lot of things that I xerox and xerox and xerox in order to have them. When I come home with them all, and I never read them. I never read them at all!

No, same here: you never seem to have the time, do you? Once you know that it is there, you feel reassured, and so you don't read it.

Exactly...

Xeroxing then can paralyse your reading activity? That's another risk?

Sure...That's another risk which is sometimes very real.

(2008)

18 February 2008

EXEMPLIFICANDO...



(2008)
A INTERNACIONAL SITUACIONISTA

(On The Passage Of A Few People Through A Rather Brief Moment In Time: The International Situationist 1957 - 1972; real. Branka Bogdanov)







(2008)
TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXII)



"Para Alice, tentámos descobrir um theremin mas, localmente, não conseguimos encontrar ninguém que fosse capaz de o tocar bem. A mulher que o tocou na orquestra original de Alice era a bisneta do inventor, o Leon Theremin. Era espantosa. Estávamos à espera que ela viesse com um instrumento realmente sofisticado mas apareceu-nos com uma coisa que parecia uma marmita com uma antena de automóvel a sair. Abriu-a e, lá dentro, todas as ligações entre os circuitos eram feitas com bocadinhos de lata de cerveja apertados à volta dos fios. A tinta estava a cair mas, quando ela o tocou parecia o Jascha Heifetz. Parece que agora andam a fazer experiências com o theremin porque, quando o tocamos, as ondas sonoras terão um certo efeito terapêutico. É qualquer coisa a nível genético que pode curar doenças. E ressuscitar os mortos.

(...)

"O meu filho Casey toca bateria na minha banda. É natural. Se se cresce numa família que tem uma agência funerária, é muito provável que se venha a ser gato-pingado. É praticamente inevitável, tem-se muito mais apoio se entrarmos para o negócio da família. Eu disse-lhe, se quiseres ser astronauta não te vou poder dar muita ajuda...

(...)



"É importante sabermos trilhar o nosso próprio caminho. O conformismo é o paraíso dos imbecis. Tenho influências como toda a gente mas procuro contrariar a tendência para o conformismo.

(...)

"Trabalhar com o Bob Wilson é como participar num bailado subaquático, qualquer coisa entre Freud e a NASA, é como olhar pela primeira vez para uma gota de água através do microscópio e dizer 'Meu Deus, há aqui um mundo inteiro! Vivo! Não sei se devo continuar a beber disto...'

(...)

"Gosto de coisas mal compreendidas. Penso que tenho um problema de processamento auditivo. Gosto de ouvir uma canção num rádio ao longe e não a perceber bem quando é interrompida pelo som de um avião, do vento ou de um tractor. Gosto das peças que faltam. Não gosto das coisas muito arrumadinhas. O Terry Gilliam ouviu aquela frase de 'The Part You Throw Away' onde canto 'In a Portuguese saloon' e julgou que eu estava a dizer 'On the porch the geese salute'. Fica muito melhor assim! Espero que haja muito mais gente que me compreenda mal.

2002

(2008)

17 February 2008

BIG BROTHER IS NOT JUST WATCHING YOU,
HE'S MONITORING YOUR BRAIN TOO! (parte II)




"Dave, Dave, my mind is going. I can feel it. I can feel it. My mind is going. There is no question about it. I can feel it. I can feel it. I can feel it. I'm a... fraid"

"As chief scientist at market research company Neuroco of Weybridge, England, [David] Lewis conducts similar experiments for global players including Bridgestone, Hewlett-Packard, and some in the food, beverage, and cosmetics industries. The United Kingdom’s first agency built on the nascent science of neuromarketing, Neuroco is at the forefront of a new discipline being touted as the most important breakthrough in marketing research in a generation. The theory is certainly intriguing: by studying activity in the brain, neuromarketing combines the techniques of neuroscience and clinical psychology to develop insights into how we respond to products, brands, and advertisements. From this, marketers hope to understand the subtle nuances that distinguish a dud pitch from a successful campaign.

'There’s a lot to learn about consumer behavior by opening up the black box,' says Harvard University economics professor David Laibson. (...) A self-described embryo in the sprawling $358 billion global advertising industry, privately held Neuroco hopes to parlay its neuromarketing insights into riches. Because neuromarketing is so new — and so potentially creepy — Neuroco’s brandname clients are reluctant to talk about the research they’ve commissioned. (...) But Neuroco is off to a promising start; founded in March, the company has already signed up six multinational clients and established relationships with many of Britain’s largest advertising agencies. (...)



Take insurance — an industry not known for running unnecessary risks. Hired by Royal & SunAlliance, the second-largest U.K. insurance company, Lewis evaluated one of Royal’s 30-second television spots by wiring 60 volunteers with electrodes. Then, shot by shot, frame by frame, Lewis examined the subjects’ EEG readings as they watched the commercial.
He discovered that the viewers’ brains were most engaged during the ad’s dramatic action scene, but interest flagged significantly at the tagline, 'You’d better ring the Royal.'
'The results suggested that the catchphrase was unlikely to prove memorable,' Lewis concluded. Royal pulled the spot shortly after the experiment.

To dig out such secrets, Neuroco charges an average of $90,000 per study. And its list of services is growing: the firm will evaluate the subliminal power of colors, logos, or product features. It measures the mental might of music or jingles, the heft of celebrity endorsers, and the most brainwave-soothing designs for store layouts. (...)


'If you get the emotional impact of the message right, everything else will follow,' Lewis says."
(repescado daqui porque deverá mesmo ser lido)



"Este método de analisar o cérebro, desvendar as decisões dos consumidores e indicar a gestores e técnicos de marketing a melhor forma de falar com os clientes já é utilizada por empresas como a Procter & Gamble, Audi e Hewlett Packard. A 20th Century Fox também recorre a esta ferramenta para aumentar ou cortar cenas de filmes em função do seu impacto." (in Expresso/Economia de 16.02.08)

(2008)

16 February 2008

BIG BROTHER IS NOT JUST WATCHING YOU,
HE'S MONITORING YOUR BRAIN TOO! (parte I)



Dr. David Lewis

"Encontrar uma promoção pode disparar o ritmo cardíaco para 192 bpm, com efeitos semelhantes ao de uma paixão, indica um estudo liderado por David Lewis, neuropsicólogo especializaddo no comportamento dos consumidores. O trabalho realizado em Inglaterra, em Julho de 2007, com o objectivo de explorar os efeitos psicológicos e neurológicos das promoções no consumidor, concluiu também que a adrenalina causada equivale a um salto de paraquedas, mostrando que 'parece haver um caçador de promoções dentro de cada um'. (...) Neste estudo, David Lewis usou uma nova ferramenta desenvolvida pela Mind Lab International e pela Universidade de Sussex que permite criar instrumentos de pesquisa capazes de fornecer mais detalhes sobre o funcionamento da mente no que toca às suas motivações, preferências, ambições, expectativas e necessidades de consumo. (...) Em Portugal, a ferramenta será testada a 27 de Fevereiro, numa grande superfície do grupo SONAE. Logo de seguida, David Lewis explica a relação entre a neurociência e o marketing na II Conferência da QSP - Consultoria de Marketing, subordinada ao tema 'Como é que o marketing pode inovar?'" (in Expresso/Economia de 16.02.08)


NEUROMARKETING EM ACÇÃO



"An attractive Englishwoman in her early 20s wanders the mall with a set of electrodes affixed to her scalp, David Lewis sees the activity of her alpha and beta brain waves — 'the stuff of human thought' he calls it — splashing across his computer screen in a zigzagging mass of red and green. 'She’s alert but not engaged', he explains as his subject saunters into an upscale shoe store. Which is true, until she picks up a pair of pink stilettos. Suddenly a colorful explosion of activity cascades across Lewis’s screen. 'You can see that beta activity on the left side of the brain — the analytical side — falls away,' he explains. 'Look how quickly the purchase decision takes place!' And indeed, a few minutes later, the cash register rings and the woman strides back into the mall with the pair of heels in a bag."

(2008)

15 February 2008

OS DOIS MUNDOS DA TRADIÇÃO


Mnemosyne

Mal se pronuncia a palavra “tradição”, desenha-se, instantaneamente, uma estreitíssima linha que, no entanto, separa, com clareza, dois universos: um, para o qual galopam muitos dos piores sinais de tribalismo, nacionalismo e, de um modo geral, tudo o que decorre do mais aterrador instinto de territorialidade, através do qual se legitima uma extensa agenda de barbaridades, selvajarias e atrocidades – das corridas de toiros, às limpezas étnicas e à mutilação genital feminina – que, a serem suprimidas (alegam os seus defensores), amputariam as comunidades dos seus praticantes de uma parcela insubstituível de preciosa “identidade”; e o outro que um dos casos relatados por Oliver Sacks em Musicophilia - Tales Of Music And The Brain ilustra exemplarmente: Clive Wearing, um músico e musicólogo inglês vítima de uma gravíssima encefalite que lhe induziu uma amnésia profunda, ficou reduzido a um intervalo de memória de cerca de trinta segundos e preso num interminável “agora” que apagou todo o sentido de continuidade da sua narrativa de vida. Essa, apenas regressava, fragmentariamente, quando se sentava ao piano e a interpretação de um prelúdio de Bach lhe devolvia uma semelhança de existência e lhe permitia inverter o sentido da condenação que, nos fugazes instantes de lucidez, reconhecia: “Sou completamente incapaz de pensar”.



O coral feminino Cramol cuida, dedicadamente, da saúde da nossa memória colectiva e fá-lo, sem interrupção, desde há quase trinta anos. A recuperação das polifonias, cantos de escatilhar, embalos, canções de trabalho, temas de religiosidade popular, esconjuros, encomendações e maldições pagãs a que, incondicionalmente, se entregam, não só impede a mumificação da música popular tradicional por entre o bolor das páginas dos cancioneiros mas – exactamente da mesma forma que os prelúdios de Bach actuavam sobre a memória residual de Clive Wearing – contribui também para que possamos continuar a pensar e a pensar-nos. Vozes de Nós, como o anterior Cramol (1996), não tem como objectivo “modernizar”, operar cruzamentos transculturais de idiomas ou inventar fogos-de-artifício vocais. Aqui, neste duplo-CD e nas várias oportunidades em que dividiu o palco com grupos de teatro, companhias de dança ou músicos como os Urban Sax, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Danças Ocultas ou Camané, o Cramol propõe-nos só a possibilidade de uma reflexão não demasiadamente simples mas decisiva: “somos isto, recordemo-nos que vimos daqui, para onde desejamos ir?”. Precisamente o género de tesouro que Wearing, na sua tragédia individual, daria tudo para possuir.



Maria Café, das Tucanas – outro colectivo feminino, neste caso de vozes, percussões e episódicos acordeão e sopros – situa-se no polo oposto: o álbum de estreia deste estilhaço distante da galáxia Rui Júnior/Tocá Rufar/Wok sonha com uma “tradição” poliglota (para a qual inventaram, expressamente, o “tucanês”) onde os diversos veios locais se confundem e a única raiz comum se alimenta da batida rítmica. Ainda não terão iniciado uma autêntica expedição de verdadeiras descobertas nem cartografado territórios inconfundivelmente novos mas o programa e desenvolvimentos futuros deverão ser seguidos com atenção.



Entre ambos, a Ronda dos Quatro Caminhos, com Sulitânia, explora as hipóteses de uma amplificação de recursos no tratamento do reportório tradicional para o que recorre aos efectivos combinados das Adufeiras de Monsanto, do grupo alentejano Coral Guadiana de Mértola, do côro Eborae Musica, do quarteto de cordas Opus 4 e dos Cantares de Évora. O ensaio de estilização e (quase) elevação ao patamar de “música de concerto” da tradição popular é, sem dúvida, conseguido, mas é impossível não reparar como, num terreno onde já muito pouco cerimoniosamente lavraram os Chuchurumel, Gaiteiros, Sétima Legião e Amélia Muge, Sulitânia resulta excessivamente engravatado e conservador.

(2008)

14 February 2008

STREET ART, GRAFFITI & ETC (XI)
(neste post, exclusivamente o "& etc")

A Grande Roda do Prater (ou The Harry Lime Experience)
Viena, Áustria, 2005












(2008)
CATEDRAL SUBMERSA



Robert Wyatt & Friends - Theatre Royal Drury Lane,
Sunday 8th September 1974


Sempre que sou submetido ao interrogatório-tipo "Qual é o disco da sua vida?" ou, em alternativa, "Qual o melhor álbum de sempre?", invariavelmente hesito, perdido pelo meio de uma lista onde Colossal Youth (Young Marble Giants), Music For A New Society (John Cale), Songs Of Love And Hate (Leonard Cohen), Highway 61 (Bob Dylan), The Ascension (Glenn Branca), The Velvet Underground & Nico ou I Want To See The Bright Lights Tonight (Richard & Linda Thompson) vão entrando e saindo da "shortlist" à medida das circunstâncias de temperatura e pressão ou dos ângulos de incidência da luz no momento. Mais uma outra boa dúzia de candidatos se pode ainda perfeitamente perfilar, à espera de substituir algum dos anteriores mas, para além de todos esses, existem sempre dois que não arredam pé: Astral Weeks, de Van Morrison, e Rock Bottom, de Robert Wyatt.



Este último, está, entretanto, muito para além de ser apenas um favorito pessoal: segundo álbum a solo de Wyatt, após The End Of An Ear (1970) e a discografia a bordo dos Soft Machine e Matching Mole, é um daqueles momentos únicos em que, no interior daquilo a que (pouco perspicazmente) se chamou "progressive rock", a música transcendeu inexoravelmente todas as categorias. A voz e as composições de Wyatt, um colectivo de músicos reunido sob uma conjunção astral irrepetível, tocando por pura telepatia, e uma atmosfera de catedral submersa, engendraram algo que nunca antes se havia escutado e que não mais voltou a acontecer. Não é, pois, de admirar que o lendário concerto de apresentação do álbum (a 8 de Setembro de 1974, cerca de um ano depois do acidente que confinou Wyatt a uma cadeira de rodas) se tenha tornado objecto de culto, multiplicado, até hoje, em inúmeros "bootlegs". Ei-lo, então, finalmente, disponível em publicação "oficial" e só restará dizer que valeu inteiramente a espera: Wyatt, Fred Frith, Hugh Hopper, Mongezi Feza, Gary Windo, Mike Oldfield, Ivor Cutler, Laurie Allan, Dave Stewart, Nick Mason e Julie Tippetts (ex-Driscoll) obedecem à determinação bíblica "Fiat lux!" e, percorrendo a totalidade de Rock Bottom acrescentada de composições anteriores de Wyatt, oferecem-nos um dos raríssimos "live" literalmente imprescindível. (2005)

13 February 2008

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XIV)



The Langley Schools Music Project - Innocence & Despair




Sigur Rós - ()

Bem vindos ao maravilhoso mundo da ilusão! A saber, aquele onde, a partir de nada ou de muito pouco, se edificam fabulosas miragens e insondáveis portentos estéticos. Num universo um pouco mais prosaico, a isto é comum chamar-se, pura e simplesmente, "hype" mas também já foi conhecido como "great rock'n'roll swindle" ou apenas "o conto do vigário".

Exemplo nº1: numa vulgar escola canadiana dos anos 70, o esforçado professor de Educação Musical local constitui com os seus alunos de tenra idade um coral-orquestra dedicado a interpretar os êxitos pop da época, dos Beach Boys a Bowie, Beatles, Neil Diamond ou Eagles. Como seria de imaginar, os meninos não cantam particularmente bem, as desafinações abundam e por vezes chegam a doer, ritmicamente a coisa anda pela estética do pé-de-chumbo e, entre vozinhas candidamente infantis e instrumental Orff apropriadamente martelado, o resultado é pouco menos do que sofrível. Não tem mal, mesmo que, para exclusivo consumo doméstico dos directamente interessados e respectivas famílias, tenham sido gravados dois LP. Acontece apenas que, trinta anos depois, se dá... "a descoberta"! E uma legião de críticos embascados (e John Zorn, e David Bowie...) derrama louvores e relatos de epifanias a propósito do arrepiante contraste entre a "inocência" dos fedelhos e o conteúdo perturbantemente adulto das canções que interpretavam. Entre todos, apenas Stephin Merritt (Magnetic Fields) ousa confessar a sua "fobia pelas vozes de crianças". Conclusão: uma grande oportunidade perdida de projecção internacional para o Côro de Santo Amaro de Oeiras!



Exemplo nº2: os islandeses Sigur Rós publicam um álbum cujo título/não-título é (), de que as faixas também não possuem nome e onde o "booklet" consiste de folhas de papel vegetal em branco. A música não é extraordinariamente diferente do anterior Agaetis Byrjun — uma amável derivação do ambientalismo 4AD com sofisticação ECM, os já previsíveis jogos dinâmicos de tensão/distensão, algum minimalismo e vozes de querubim — mas, desta vez, ou particularmente invertebrada e indolente ou, em alternativa, pomposamente épica do lado errado de Glenn Branca, não apenas repetitiva mas também francamente inferior relativamente a Agaetis que chegava a ser hipnoticamente belo. Mas, oh milagre!, "o conceito" — aliás, já sobejamente explorado, por exemplo, no laconismo gráfico da Factory, nos anos 80 — sai vencedor sobre a música e sucedem-se os ensaios de hermeneutica delirantemente metafísica acerca do "vazio parentético", dos "jogos de receptáculos" e do "fluxo de conteúdos", além do já conhecido "paisagismo vulcânico e lunar" de raiz glaciar. Aprendam como se criam mitos. Afinal, é fácil. (2002)