31 May 2010

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (LI)

João César das Neves


When Harry Met Sally - real. Rob Reiner (1989)

"Esta lei [do casamento entre pessoas do mesmo sexo] não surgiu do nada. Ela constitui apenas o mais recente passo de uma vasta campanha de promoção do erotismo, promiscuidade e depravação a que se tem assistido nos últimos anos. Por detrás de leis como o aborto, divórcio, procriação artificial, educação sexual e outras está o totalitarismo do orgasmo". (aqui)

(2010)
COURBET & OLDHAM


Les Lutteurs - Gustave Courbet (1853)



Lie Down In The Light - Bonnie "Prince" Billy
(capa de Joanne Oldham, 2008)


(2010)
AO MENOS, NA ISLÂNDIA, AINDA HÁ
PARTIDOS EM QUE SE PODE VOTAR




"O auto-proclamado 'Melhor Partido' [Besti Flokkurinn], fundado pelo comediante islandês Jon Gnarr, venceu com 34,7% dos votos as eleições autárquicas de Reykjavik, capital da ilha, ficando à frente do institucional Partido da Independência. (...) O Melhor Partido conquistou o eleitorado com propostas como a construção de uma Disneylândia na ilha, a compra de um urso polar para o zoo de Reykjavik e a distribuição gratuita de toalhas. 'Vamos prometer o dobro dos outros partidos e cumprir o mesmo: nada!', declarou Gnarr durante a campanha". (aqui)

(2010)
LIGAÇÃO ÀS MASSAS (II)


"Azar ou opção? Mulheres que só andam com homens casados"

(2010)
A EMBAIXADA DE PORTUGAL NO BRASIL
PODE REVER E CORRIGIR A HISTÓRIA
À MEDIDA DAS TROPELIAS NOTICIOSAS
E DA FÉRTIL IMAGINAÇÃO DO CHEFE?...




Estava já aqui sob a forma de "edit". Mas, francamente, parece-me que a interrogação merece maior destaque.

Edit: o link para este post foi colocado na caixa de comentários do blog da Embaixada. Aguarda-se publicação e resposta. Já, ontem, um outro comentário no mesmo post - entretanto, alterado - nunca chegou a aparecer.

(2010)
STARING AT MARINA ABRAMOVIC

"At Marina Abramovic's MOMA retrospective 'The Artist is Present' the public is given the opportunity to sit across from (and generally stare at) the renowned performance artist for as long as they like. Photographer Marco Anelli takes a photo of each participant and catalogs them in a Flickr stream that currently contains over 1,300 portraits. The album captures celebrities, super fans, and average museum goers with a tolerance for 8-hour lines as they react to Marina's gaze, be it in terror, amusement, or more often than not, by crying like a baby". (aqui)

Lou Reed, 9 minutes


Isabella Rossellini, 8 minutes


Sharon Stone, 10 minutes


Björk, 4 minutes


Robert Wilson, 13 minutes

(2010)

30 May 2010

A FONTE, A GÉNESE, O TRONCO DO FADO



Algures a meio de um percurso de mais de trinta anos de recolha e estudo da tradição musical popular portuguesa, pelo fim da década de 80, nas imediações de Viseu, ao gravar o reportório de romances e canções narrativas de uma velha camponesa, José Alberto Sardinha teve o seu momento-estrada de Damasco: e se, na forma “afadistada” de interpretar os romances tradicionais (que sempre fora atribuída à maléfica contaminação da “pureza” original pelos media modernos), estivessem, afinal, os indícios acerca da origem primordial do fado? “Há momentos assim. A realidade, muitas vezes, está mesmo à frente dos olhos e não a vemos. Mas há um dia em que a vemos. Pode ser por um acaso mas o acaso e a sorte também se constroem. Já, há mais de 30 anos, em Vinhais, tinha gravado uma velhota, Lídia Cepeda, que cantava romances de uma forma afadistada que, na altura, eu abominava. E, tal como ela, muitas outras. Depois, as coisas começam a fazer sentido: primeiro, era assim que ela sentia aquela canção; e, depois, provavelmente tinha sido daquele modo que ela a tinha ouvido aos cegos que cantavam nas feiras. A forma 'gemidinha', sentimental de cantar provém do próprio enredo do tema, e, por parte dos cegos que as cantavam nas feiras, de um sentido comercial das coisas: quanto mais ‘aterravam’, quanto mais ‘terror’, mais lágrimas, espalhavam, mais ganhavam. É um bocado como acontece hoje com as revistas cor-de-rosa, quanto mais drama e escândalo mostrarem, mais vendem”.


J. A. Sardinha

Esse momento de revelação obrigou-o a colocar uma hipótese: “Isto serão apenas semelhanças ou será que é a raiz do fado?”. Desde então até hoje, paralelamente à publicação de diversas obras e gravações de espécimes do património musical popular seleccionadas dos milhares de horas de registos que realizou, não desistiu de perseguir essa hipótese que, agora, defende e fundamenta nas quase 600 páginas e quatro CD de A Origem do Fado: “Esse fado popular, esse fado das ruas, de faca e alguidar, dos ceguinhos, não é outro senão o substracto novelesco do romanceiro tradicional, e o subsequente manancial das canções narrativas, afinal, o primitivo, o primacial, o originário fado, a fonte, a génese, o tronco primevo do nosso fado”. As peças do puzzle começaram a organizar-se quando “tudo aquilo que tinha ouvido no campo e tudo aquilo que tinha lido e que voltei a ler logo a seguir bateu certo. O Giacometti, por exemplo, no guia das recolhas do serviço cívico, dizia que os romances, entre o povo rural, são conhecidos por ‘quadras’, ‘histórias de casos sucedidos’ ou ‘fados’. O Pires de Lima afirmava que, no Minho, o Romance do Conde da Alemanha é, ‘antipaticamente, conhecido por fado’. O próprio Teófilo Braga que é tido como defensor da tese ‘arabista’ mas, na realidade, não é, diz que ‘as chácaras são os nossos fados de hoje’. De início, ainda pensei que seriam só as canções narrativas a partir do século XVIII porque, do ponto de vista musical, de facto, o molde é de finais do século XVIII. Mas, poeticamente, vem mais de trás, do romanceiro novelesco. Já no século XVI e até no XV havia romances novelescos. Romances que, de históricos, passaram a novelescos. Histórias de amores e desamores das princesas que, depois, foram parar às cantigas de aventuras, e, por fim, ao Zé Pina e Maribela, à Rosinha costureira e ao Manel serralheiro”.


Cantadeira de fado (foto do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa)

Ainda aí, no entanto, a possibilidade de “contaminação” se poderia imaginar: não teria sido a própria popularidade do fado que conduziu a designar como “fado” formas populares diferentes? “É exactamente ao contrário. À medida que o fado artístico se foi impondo, isso foi caindo cada vez mais em desuso. Alguns cegos contavam que os pais falavam dos ‘fados da feira’ mas que, agora, ‘sabiam que aquilo que cantavam, afinal, não era fado’. Fado, era o fado dos artistas. Os mais antigos chamam fado a tudo o que seja canto narrativo. Não faziam distinção entre cantar o ‘Romance do Soldadinho ou o ‘Conde da Alemanha’ e um fado da Amália. Na Beira, tudo o que conte uma história são ‘quadras’. Na segunda metade do século XIX, o canto narrativo teve o mote em quadra com glosas em quatro décimas. Por um fenómeno de generalização, todos os romances, mesmo os antigos, passaram a chamar-se ‘quadras’ e substituíram o termo ‘fado’". A bifurcação entre esse fado primitivo e o ‘artístico’ terá acontecido por volta de 1840, “quando o conde do Vimioso leva a Severa a cantar nos salões. Os dados históricos de que dispomos são os relativos a eles mas as coisas até podem ter começado antes. Não há, porém, dúvida que foi tomado de moda porque, na segunda metade do século XIX já estava na revista. O fenómeno, entretanto, já existia nas tabernas e bordéis há muito mais tempo. Os cegos sempre estanciaram e tocaram nas tabernas. O fado, no entanto, até poderia ter existido popularmente e ter desaparecido como tantas outras espécies musicais. Era um género desconsiderado que passou a ser socialmente aceite porque houve quem o achasse pitoresco. Nos salões, tocava-se a gavota, o minuete, a modinha, o lundum... e, a certa altura, aparecem uns tunantes com um género totalmente diferente!”.


Casa da Severa (foto do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa)

Existiria, de facto, possivelmente, bem antes disso como refere Carolina Michaëlis que o faz recuar até aos séculos XV ou XVI: “Carolina Michaëlis também não seria credível se um conjunto de circunstâncias não coincidisse para que isso fosse levado a sério. Aliás, essa afirmação nunca foi revelada por nenhum estudioso do fado. Quando eu vejo as coisas como vi e comecei a ler os vários autores, aquilo fazia lógica. Os estudiosos do século XIX – Michaëlis, Teófilo Braga, Leite de Vasconcelos – não deram muita importância ao fado porque era uma coisa da época, não estava em vias de extinção, e eles procuravam era antiguidades. O nosso grande problema no estudo do Romanceiro e da nossa canção popular é não termos tido um Walter Scott nem um Robert Burns. Tivemos um Garrett que não sabia música. Estudou a literatura mas não estudou a música. As canções escocesas que nós cantamos como música tradicional são do Scott e do Burns. As verdadeiras tradicionais ficaram. Tal como o Garrett fez à poesia, eles fizeram à música: adocicaram-na, romantizaram-na e criaram novas músicas. Não tivemos em Portugal quem tivesse feito canções 'à la mode populaire'. Por outro lado, tivemos a vantagem de que as coisas nos chegaram em estado mais cru”.

(2010)
UM GAJO METE CUNHAS, FAZ FIGURINHAS TRISTES,
MAS LÁ CONSEGUE QUE, ENTRE ESCOVAR OS DENTES
E BOCHECHAR, O CHICO SE SENTE AO LADO DELE PARA
UMAS FOTOS "QUE VÃO SER UM SUCESSO LÁ EM CASA"




... e, depois, deixa meio mundo dependurado, porque, se era para passar vergonhas iguais, uma já tinha chegado.

(o "ex-ministro (?) e cantor Caetano Veloso" referido na notícia é bastante mais provável que tenha sido o "ex-ministro e cantor Gilberto Gil"...)

edit 31.05.10: o post do blog da Embaixada de Portugal no Brasil que aqui tinha sido referido foi modificado -, omitindo a historieta inicial do "enorme desejo de Chico Buarque" em conhecer o Chefe Máximo e passando a relatar uma versão "neutra" sem qualquer alusão à "notícia" original...

(2010)
LES NUITS DE FOURVIÈRE - NUIT BROOKLYN
(12 Julho | 21h | Grand Théâtre)



(2010)
DENNIS HOPPER (1936 – 2010)


Blue Velvet - real. David Lynch, 1986

(2010)

29 May 2010

PÁ, MAS TU AINDA NÃO PERCEBESTE, PÁ, QUE SE QUERES SER VISTO NA COMPANHIA DE CERTOS SENHORES, PÁ, TENS, NÃO É VERDADE, COMO DIZER?... DE LHES PAGAR? (e nem todos aceitam, pá)





edit 30.05.10: ... e, no blog da Embaixada de Portugal no Brasil, continua a persistir a história da carochinha...

(2010)
WINKS LIKE SARAH PALIN,
DOES PRODUCTION NUMBERS LIKE LAGY GAGA




"Who am I talking about? Who but Robot Maria, the evil cyber-alchemical doppelganger of sweet organic Maria in Fritz Lang's 1927 Metropolis. No joke. In the above shot Robot Maria's letting Joh Fredersen, the 'brain' or 'head' of the futuristic titular megacity, that she totally 'gets' what he's on about and is ready to get the job done.



And here, she's fascinating the super-rich patrons of the Yoshiwara nightclub, and pretty much literally embodying the you-know-what of Babylon. Rockin' the headgear, natch. To think that actress Brigitte Helm was a mere teen when she acted in this. Kick ass!" (post integral aqui)

(2010)
LIGAÇÃO ÀS MASSAS (I)


"Mude de vida em 59 segundos: a ciência mostra que podemos alterar o nosso rumo em menos de um minuto".

(2010)
CULINÁRIA ALTERNATIVA DE INSPIRAÇÃO CRISTÃ
(ou eucaristia alternativa de inspiração gastronómica)



Post meramente informativo. Receita definitivamente desaconselhada a gastrónomos de paladar mais requintado e/ou de estômago sensível. Não experimentar sem consultar primeiro o seu médico-nutricionista.

(2010)

28 May 2010

PONHAM OS OLHOS NELA: PERSPICAZ ENTENDIMENTO
DO QUE SÃO AS VERDADEIRAS CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO;
AGUDÍSSIMO ESPÍRITO EMPREENDEDOR; VERTIGINOSA
MOBILIDADE SOCIAL ASCENDENTE (DO PRIMEIRO CICLO À UNIVERSIDADE NO ESPAÇO DE POUQUÍSSIMAS SEMANAS)




Bruna Real anima festa universitária (ou isto é que são as autênticas "novas oportunidades"!)

(2010)
SÓ PODE SER DA CRISE: NUNCA HOUVE UM FESTIVAL DA EUROVISÃO COM TÃO ANÉMICO TEOR KITSCH...
(com muito boa vontade, safam-se estas duas)


Thea Garrett - My Dream (Malta): uma Liza Minnelli um pouco mais estrábica e esférica atacada à traição (aos 2'06") pela aventesma adejante



Paula Seling & Ovi - Playing With Fire (Roménia): já que não há Dana International teremos de nos contentar com o piano bissexual

(2010)
POR OUTRO LADO...



Um homem cai dentro de um poço fundo e mergulha 30 metros antes de conseguir agarrar uma raiz fina, que trava a queda. Ele tem cada vez menos força para se segurar e, desesperado, grita:
- Está alguém aí em cima?
Levanta a cabeça e só consegue ver um círculo de céu. De repente as núvens separam-se, um raio de luz incide sobre ele e ouve-se uma voz forte:
- Eu, o Senhor, estou aqui. Solta a raiz e eu salvo-te.
O homem pensa durante alguns segundos e depois grita:
- Está mais alguém aí em cima?

(Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, Thomas Cathcart & Daniel Klein)

(2010)

27 May 2010

COM TANTO SALAMALEQUE AO SUMO-PATÍFICE, E COM TANTO PALEIO SOBRE AVANÇO TECNOLÓGICO, SERVIÇO PÚBLICO A SÉRIO COMO O DA YOU'VE BEEN LEFT BEHIND, QUANDO É QUE UM BOM E SANTO CRISTÃO LUSO PODERÁ TER ACESSO INSTANTÂNEO A ELE?
(e à borla, claro, que este são $14.95 e os tempos não estão para despesas)



É muito simples: quando a segunda vinda do filho do Panthera ocorrer, o pessoal atinadinho que reservou a tempo e horas o bilhete de ida para a Mansão da Playboy Celeste está safo. Mas os incontáveis outros que deixam sempre tudo para a última hora, vão pagá-las bem caro: não há Mansão da Playboy Celeste para ninguém!

Resta, no entanto, uma derradeira hipótese: "uma pequena janela de oportunidade [uma espécie de "Novas Oportunidades" teológicas] em que ainda poderão ser salvos" e apanhar o último transporte para a Felicidade Eterna. Foi a pensar nisso que a You've Been Left Behind criou "um sistema que permite, seis dias depois do 'second coming', enviar documentos por email para os endereços que lhe forem fornecidos, dirigidos aos eternos despassarados e atrasadinhos que se deixaram ficar para trás, a avisá-los de que, com uns terços e uns aleluias, ainda se conseguem desenrascar".

Exige-se, pois, uma parceria público-privada Estado-Vaticano S.A. que permita lançar em Portugal a "Salvação na Hora"!

(2010)
DENTRO DE CADA STEVE JOBS HÁ SEMPRE UM
PROFESSOR KARAMBA A ESPERNEAR PARA SAIR

(ou o humano demasiado humano)


Funcionários da Apple chegando ao emprego

Fabricante do iPhone contrata monges budistas para afastar maus espíritos

(2010)

26 May 2010

STREET ART, GRAFFITI & ETC (XLV)

Lisboa, Portugal, 2010 - Os Gémeos/Blu









(2010)
PASSOS COELHO DESFERE TREMENDO ATAQUE HOMOFÓBICO
CONTRA SÓCRATES E... A COMUNIDADE GAY FICA-SE?!!!...




O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, disse hoje ser "um péssimo dançarino", lamentando "desiludir as senhoras que gostam de dançar ou outra gente que possa ter outras intenções".

(2010)
NÃO ME LIXES, NEIL...



White Rabbits - It’s Frightening

Vinha numa sequência quase perfeita: The Rest Is Noise, o livro sobre a história da música no século XX, de Alex Ross, The Heart Of The Matter, de Graham Greene, Synecdoche, New York, de Charlie Kaufman, a Penguin Cafe Orchestra, Paolo Conte – todos recomendados por Neil Hannon, num daqueles perfis do artista-enquanto-consumidor, a pretexto da edição de Bang Goes The Knighthood. E, a fechar, It’s Frightening, de mais uma banda de Brooklyn, White Rabbits, definida como “Adam Ant drums, school-room piano, enormous guitar riffs, sparse yet ferocious”. Fui na conversa. E, apesar de apenas distribuído em Portugal, quase um ano após a publicação americana, dei-lhe ouvidos. Não me voltas a enganar outra vez, Neil, que esta receita de clichés rock com o anzol de duas baterias para impressionar tolos (uma única, nos National, jorra mil vezes mais ideias rítmicas por segundo) foi um dos maiores desgastes inúteis de tímpanos dos últimos meses.

(2010)

24 May 2010

MELHOR DO QUE QUALQUER SARAMAGO COMUM



Tiago Guillul - V

Indo direito ao assunto e para acabar de vez com as indefinições: o que pode um agnóstico/ateu (ou, noutro plano algo diferente, um católico vulgar de Lineu) retirar do “panque roque” criado e gravado por um pastor evangélico baptista que não só não esconde a sua condição como a expõe abertamente nas canções? Tiago Guillul digere mal este tipo de generalização mas, ainda assim, é indispensável dizer que o que ele e restante trupe FlorCaveira – que nem sequer é, confessionalmente, homogénea – produzem não possui o mínimo ponto de contacto estético com aquilo que é, habitualmente, conhecido como “rock cristão” ou com o kit-pronto-a-usar do pseudo-gospel de IURDs, Manás e afins.



A minha (só minha) resposta exige um prévio "disclaimer": na escala-Richard Dawkins (de 1 a 7) de “probabilidade teísta”, situo-me, tal como Dawkins, no 6-a-escorregar-para-o-7, isto é, ateu de facto“não posso ter a certeza absoluta mas acho Deus muito improvável e vivo assumindo que não existe”. Arrumada a questão, há que reconhecer que, como bom protestante exegeta da Bíblia – essa fantástica compilação de histórias de violência, ódio, paixão, vingança, mistério, acção, fantasia, aventura, ficção científica e pornografia –, Tiago dá-lhe muito melhor uso do que qualquer Saramago comum.



E se, aqui e ali, o pé lhe foge demais para a homilia ("Nem Um Só Cabelo Será Perdido") ou se agarra a metáforas um tanto herméticas ("Roma E Avinhão"), com tão boa matéria-prima seria difícil falhar. E ele não falha: o caldo de cultura poderá ser oitentista mas há também suficiente África, ferrugem e impurezas várias surripiadas, para dar origem a óptimas canções – e escutá-las desprovido de fé só lhes acrescenta um picante suplementar – prontas a receber o testemunho da melhor época dos GNR (Reininho assina o ponto), Pop Dell’Arte e Variações e oferecer-lhe uma sequência inteiramente à altura.

(2010)
DERRUBAR AS MURALHAS DE JERICÓ



Quase dois anos após o vírus FlorCaveira - aquela peculiar combinação de “religião & panque roque” que apresentou à sociedade Tiago Guillul, João Coração, B Fachada, Samuel Úria, Diabo na Cruz e os Pontos Negros - ter contaminado praticamente toda a imprensa, estou, de novo, na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica, perante Tiago Guillul, locomotiva editorial e teológica da conspiração, à beira de publicar (em vinil e CD) o novo álbum V. E, agora que o contingente FC já, definitivamente, não compete na categoria “new kids on the block”, só lhe posso perguntar se isso, para ele(s) é uma desgraçada fatalidade ou um alívio: “Estamos felizes por o pó ter assentado. Há um lado que eu diria cavaquista que é o de que mostrámos trabalho. Independentemente do fenómeno real, na medida em que se falou dele, foi também um fenómeno muito circunscrito à imprensa. A minha vida continua tão anónima como antes”.



Sim, Tiago Cavaco/Guillul assegura que ainda não é perseguido nas ruas por jovens fãs tresloucadas: “Eu também tenho pouco perfil para isso, pai de filhos e tal... quem tem mais esse perfil na FlorCaveira é o Samuel Úria, aquele ar mais romântico. Mas, se pensarmos no que se passou depois desse momento de descoberta, toda a gente continuou a gravar, apareceu o Diabo na Cruz... quem achava que aquilo seria, necessariamente, um fogacho, não acertou. É nesse sentido que eu digo que foi uma resposta um bocado cavaquista: dissemos ‘deixem-nos trabalhar’ e nós trabalhámos. Espero que não seja só o Portugal do betão mas estradas onde as pessoas possam andar e dizer que valeu a pena”.



O balanço mais interessante deste tempo terá sido, entretanto, o facto de a percepção que se tinha desta associação de exegetas bíblicos, praticantes de “roque enrole” e “compagnons de route” vários, ter saltado as fronteiras de apenas um grupo de gente "cool" mas oriunda de uma religião “exótica”: “Parece-me que há muitas pessoas a descobrir-nos independentemente desse fenómeno de imprensa. Reparei especialmente nisto a propósito do teledisco que fizemos para o ‘Sete Voltas’. De repente, o 'Record' quer falar comigo porque uns amigos criaram um grupo no Facebook a anunciar que esta devia ser a música oficial da selecção para o Mundial!... A culpa é minha porque eu fiz uma piada com isso (a canção, na verdade, é sobre o episódio bíblico das muralhas de Jericó) e, se calhar, o problema deste país é que ninguém pode fazer piadas porque as pessoas não percebem a ideia. Mas com o Samuel Úria, com o Diabo na Cruz e com este efeito do teledisco, sinto que há, de facto, pessoas novas a descobrir-nos”.



A verdadeira questão, no entanto, é: perdida essa aura de cristãos-militantes-nas-catacumbas-de-Roma, não correrão o risco de começar a haver quem pense “you’re no fun anymore?” “Reconheço que, como este é um país tão pouco tocado pela diversidade religiosa, por mais que nos apeteça que falem de outra coisa, isto irá continuar a ser jornalisticamente forte. Mas, mesmo quando as pessoas se aperceberam do nosso lado ‘National Geographic’, apesar de tudo, falaram da música. Isso, para mim, é um alívio. Na verdade, continuar a sobrevalorizar esse aspecto do ‘exotismo’ religioso será um caso de ‘it’s no fun anymore’. Isso já é notícia, seguramente, de 2008. Até porque, às vezes, a melhor maneira de encenarmos tolerância ou civilização é termos uns espécie de bobos da corte que era como, se calhar, a FlorCaveira aparecia”. Neste V, na realidade, o segundo álbum de Guillul para o mundo, que só o descobriu com o IV (“Isto, agora, é uma categoria um pouco kierkegaardiana... e a piada é essa. Ir assumindo números que, aos olhos da maior parte das pessoas, são virtuais”), a grande maioria das canções é construída sobre “uma amostra de” – batidas rítmicas, excertos de outras músicas... afinal, uma estratégia de auto-defesa:



“Se me armasse em grande cantor ou grande tocador e chamasse uma banda para servir as minhas canções, não funcionaria. Também por ser, simbolicamente, a primeira vez que iria trabalhar canções minhas em estúdio, tentei arranjar balizas para arrepiar caminho. E boa parte das balizas foi criada ou roubando excertos de batidas ou – apenas em dois casos – de música de bandas evangélicas portuguesas dos anos 80 e 90. Senti-me confortável ao pensar que, se ia gravar um disco em estúdio, e se reconhecia que não iria conseguir fugir ao feeling anos 80, ao menos, levoava migalhas da música que me permitiu chegar aqui. Umas vezes, o processo já estava quase concluído e era só um argumento rítmico para juntar; outras, o argumento rítmico estimulava-me a inventar a canção. Por outro lado, é a minha maneira humilde (ou falsamente humilde, também existe esse risco) de invocar outras vozes na hora de trazer a minha”. A excepção é uma canção “construída sobre a indignação resultante de declarações de Mário Soares”: “Se os evangélicos, coitados, não têm grande voz perante um gigante da nossa democracia como o dr. Mário Soares, na minha maneira patética, achei que me devia pronunciar. Numa palestra, ele referiu-se ‘às novas religiões que nos chegam’, falou em ‘evangélicos fanatizados’, aquele eterno clima de suspeição... o Mário Soares não precisa de ser católico para, na estranheza perante as confissões socialmente rebaixadas, numa atitude, de facto, racista, insinuar que não devemos ter nada a ver com essa classe média-baixa dos brasileiros, africanos e ciganos que chegam cá com essa ‘balbúrdia’ de cultos”.



E, a emprestar uma tonalidade comum a todo o disco... uma peculiar forma de pornografia: “Sim, é verdade, há clichés dos anos 80 por todo o lado. Sem querer sociologizar demais, as nossas fronteiras de pudor com o passado, quando estamos numa fase em que precisamos de muita auto-estima – que são, tipicamente, os anos da universidade –, mais tarde, desaparecem. E, aí, pensamos: quais foram as canções que, quando era miúdo, me marcaram? Por isso, é que há esta sede pela nostalgia. Numa canção, eu digo que é a nova pornografia, porque é uma luta espiritual minha e passa por ir ao YouTube procurar os anúncios que via quando era pequeno e que assume um poder idólatra e mentiroso em relação ao passado”.

(2010)

23 May 2010

PARA MIM, COREIA DO NORTE, BRASIL, COSTA DO MARFIM
... OU PORTUGAL, TAMBÉM É REALMENTE INDIFERENTE...


... mas, ó Jerónimo!... o p.o.v.o. da bejeca e do tremoço que, em condições ideais de temperatura e pressão, até lhe pode passar pela cabeça votar no PCP, não hesita entre mulata, axê e samba e o amado líder Kim Jong-Il!... Os bernardinos e as ritas, colegas de curso do Professor Karamba, ainda se podem permitir essas frescuras de "internacionalismo proletário". Mas tu, Jerónimo, pintarolas do bailarico dos bombeiros... francamente!...



(2010)
A BUMBLER, A STAGE DRIFTER



"He's [Matt Berninger] a bumbler, a stage drifter, sometimes lost, sometimes not. 'I'm just shy of total failure', he deadpans about his live shows. 'There's something awkward about what we're doing. Not by design, but it has an unpolished and borderline foolish and embarrassed exposure. Maybe that's what people relate to a little bit'. All this makes him stand out from his NYC nominal-rock-star peers. Julian Casablancas: too cool, too aloof. James Murphy: too jaded, too arch. The Grizzly Bear dudes: too soft, too gentle. Dave Longstreth: too cerebral, too academic. Karen O: too shrieky, too stylish. The Hold Steady's Craig Finn: too duuuude, too well read. Anyone in Interpol: too polished, too poised. Berninger flirts with all those qualities, but doesn't overplay any of them: a near-perfect mix of the personalities that surround us every day. The guy in your apartment building obsessed with his new new-media job. The trivia hound at the bar who's so sure Hanna-Barbera cartoons are art. The guy in film school who used to be a jock who made fun of film schools. The guy you slept with last night who hasn't called. The guy who wants you back. The guy who looks depressed and lonely as he reads novels you think you've heard of on the 2 train. The guy who says he loves you and means it; the guy who says he loves you and might not. The guy who hates himself but loves his biker rights. The guy who feels so alienated in a big city, finds the bright lights blinding and the noise deafening, but will never leave because he's too afraid to live anywhere else". (artigo integral aqui)

(2010)

22 May 2010

GRANDES VULTOS NACIONAIS (XI)

Miguel Graça Moura
(por Pedro Mexia - parte III; continuação daqui)



"Claro que o que Miguel faz a Rachida em termos sexuais é um mimo comparado com a sua imparável 'descarga' cultural. Eis um homem que entre duas pranchadas diz 'George Steiner, ensaísta americano nascido em Paris em 1929'. Ou 'Sabe-se pouco sobre a vida de Hieronymus Bosch [...] Terá nascido à volta de 1450 e morreu em 1516'. Não há facto cultural que não seja feito conversa de engate. Entre duas sem tirar, o maestro, momentaneamente refractário, discorre sobre Tintoretto, a descolonização, a arquitectura do Pompidou, Rachmaninov, Visconti, a história da valsa, a sexualidade em Roma e as diferenças entre maoísmo e confucionismo. E depois, enquanto descansa de novo, retoma: 'Regressemos a Ingmar Bergman'. Rachida admite: 'É muita areia para a minha camioneta'. E para a nossa também". (Pedro Mexia na "Ler" de Maio)

(2010)
COM JEITO, DEVAGARINHO, A COISA AINDA VAI LÁ


(Versão monárquica) Hino: "Jupiter, the Bringer of Jollity" (Gustav Holst - The Planets)

Estudo revela aumento de portugueses e espanhóis partidários de união ibérica


(Versão republicana) Hino: "Bjorneborgarnas Marsch" (Carl Axel Bergstrom)

(2010)

21 May 2010

OS VALORES DA FAMÍLIA



"O que é, na prática, o Rock In Rio? Um freak-show em que há alguma, muito pouca, música, ou, pelo menos e para sermos justos, muito pouco critério na escolha da música. Como em todos os festivais, perde-se mais tempo no bungee-jumping do que a ver concertos. Perde-se mais tempo a deslizar por uma corda do que a deslizar em vagas musicais. Perde-se mais tempo em concursos que envolvem destreza a pôr preservativos num dildo do que a ouvir música que obriga a uma certa destreza de ouvido. (...) E como reage o tuga médio perante isto? Bem, o tuga médio vai com a família, come versões globalizadas de burritos que lhe dão a volta à tripa (elogio), reclama com a mulher quando ela quer dar dinheiro para mais uma causa, dá uns tapas no filho, pede a jornalistas aborrecidos para tirarem fotos à família enquanto tenta afastar a sogra do enquadramento e manda mais um tapa ao filho. É preciso estar lá, é isto a cola que une a grande instituição familiar, um dia a foto ficará por cima do aparador das louças ao lado do galo de Barcelos e da música ninguém se lembrará, excepto talvez no caso da filha que mais dia menos dia tentará emular os tiques de Shakira com o namorado (que acabará a ser levado ao altar pelo sogro perante a ameaça de caçadeira). Um festival adorável". (João Bonifácio aqui)

(2010)

20 May 2010

É INDISCUTÍVEL: HITLER SERIA INCAPAZ
DE MATAR OS FILHOS QUE NUNCA TEVE!




... mas, para além disso... esta gente (ó sotôr Paulo Portas, investigue lá isso)... não tem um horário de trabalho? Balda-se ao emprego para ir, diariamente, violentar os tímpanos de quem passa na rua com aquela chinfrineira? Usa o subsídio de desemprego para comprar "lágrimas-da-virgem-com-fetos-lá-dentro" (o que, francamente, também me parece muito pouco higiénico - atenção ASAE!)? Caramba, foi isto o que "o pai lhes ensinou"?...

(2010)
GRANDES VULTOS NACIONAIS (X)

Miguel Graça Moura
(por Pedro Mexia - parte II; continuação daqui)


(desenho daqui)

"Rachida é uma escrava sexual. Disposta a tudo, tem a tarefa de enaltecer aquele macho-alfa. Ele é, exclama Rachida, culto, sensível, másculo, erudito, e, claro, bem apetrechado. 'A desmesura desta erecção pode causar-te dor', avisa o maestro, e ela confirma que o coiso é de facto 'imponente'. O coiso, aliás, tem petit nom: 'Senhor Embaixador'. Rachida: 'Faz-me sentir a poderosa dimensão do Sr. Embaixador dentro desse rego tão estreito'. Bela frase para um cartão de visita. Rachida está nas núvens com o seu macho de cobrição. 'Que fabulosa descarga', exclama Rachida. E, sonsita, profere a imortal frase: 'Engoli o teu líquido... Fiz mal?'" (Pedro Mexia na "Ler" de Maio)

(2010)
DE PÉ Ó VÍTIMAS DA FOME! DE PÉ FAMÉLICOS DA TERRA!




(2010)

19 May 2010

GRANDES VULTOS NACIONAIS (IX)

Miguel Graça Moura
(por Pedro Mexia - parte I)



"(...) Miguel Graça Moura será ou não bom maestro. O que ele é com certeza é um ás da batuta. O Prazer, interminável calhamaço a que ele chama 'memórias desarrumadas', arruma as memórias em registo de ficção autobiográfica. Num TGV, o garboso condutor de orquestra encontra uma rapariga árabe de 22 anos, Rachida, e durante 600 páginas, obriga-a a ouvir a história da sua, dele, vida. E enquanto isso faz-lhe coisas, sempre assombrosas e inauditas.
Tudo começa com a relativa pacatez de
'afaguei-lhe resolutamente os seios'. E depois vai descendo, 'Trasladei-me para a curva lateral da cintura' é o meu verbo favorito. 'Introduzi a língua o mais que pude dentro da fenda túrgida' contém o adjectivo mais comovente. Rachida parece um petisco: 'nádegas indescritivelmente apetitosas', 'um rego de cortar a respiração'. Miguel Graça Moura não nos poupa a nenhum entusiasmo, a nenhuma posição e inserção, a nenhuma escorrência. Depois de uma arenga intelectual, o maestro determina: 'Tenta manter-te completamente descontraída. Os músculos do esfíncter são completamente elásticos e excitáveis, como aliás toda a região anal. Vou começar por saudar esta maravilhosa entrada'. E depois passam férias em Rabat (...)". (Pedro Mexia na "Ler" de Maio)

(2010)
AINDA NO RESCALDO DO "PAPA IN RIO" PARA
APRECIAR EM CONJUNTO COM ESTAS E EM
CONTRAPONTO TRANSATLÂNTICO COM ESTAS



(daqui via sugestão nesta caixa de comentários - clicar para ampliar)

(2010)
AINDA SE PODE FAZER ALGUM ESFORÇO PARA ACREDITAR NUM P.E.C. ASSIM...

"Os directores de bancos islandeses que arrastaram o país para a bancarrota em finais de 2009 foram presos por ordem das autoridades, sob a acusação de conduta bancária criminosa e cumplicidade na bancarrota da Islândia. Os dois arriscam-se a uma pena de pelo menos oito anos de cadeia, bem como à confiscação de todos os bens a favor do Estado e ao pagamento de grandes indemnizações. A imprensa islandesa avança que estas são as primeiras de uma longa lista de detenções de responsáveis pela ruína do país, na sequência do colapso bancário e financeiro da Islândia. Na lista de possíveis detenções nos próximos dias e semanas estão mais de 125 personalidades da antiga elite política, bancária e financeira, com destaque para o ex-ministro da Banca, o ex-ministro das Finanças, dois antigos primeiros-ministros e o ex-governador do banco central". (notícia completa aqui)

(2010)
O MARAVILHOSO MUNDO DA BLOGOCOISA (IV)


Tem traços de família, sim senhor...

Há minutos, alguém acedeu a este blog através da query "barry van dyke passos coelho".

(2010)

18 May 2010

OUVE-SE A CRIATURA DIZER "NÃO ESTOU PREOCUPADO
COM A MINHA IMAGEM, NÃO ESTOU PREOCUPADO COM O
MEU FUTURO POLÍTICO" E, INSTANTANEAMENTE, DEIXA
DE SER POSSÍVEL ACREDITAR NUMA ÚNICA PALAVRA




(2010)