30 June 2016

 Béclair/éclair 
(recebido por email)

1 - Um homem entra e pede um béclair de chocolate; o empregado não percebe mas traz-lhe um éclair de chocolate; o homem diz que não foi isso que pediu, que o que pretendia era “algo assim maior, com duas pernas e um sítio em cima para se colocar um cinto”. O empregado responde que numa pastelaria não se vendem calças. O homem pede o Livro de Reclamações. Por mais incrível que pareça, foi exactamente isto que se passou na Prova Escrita 623/ 1ª fase de História A do 12º ano de escolaridade. 

2 -  Uma vez que são confidenciais, a população em geral não tem acesso aos exames efectuados pelos alunos; mas todos juram que os alunos de hoje são ignorantes, incultos e que não sabem pensar nem escrever. Mas a população em geral tem acesso aos enunciados dos exames a que esses alunos são submetidos, uma vez que são públicos. E, tomando como exemplo o Exame de História A do 12º ano de escolaridade, Prova 623/1ª fase, a população em geral pode dizer, não como manifestação de opinião subjectiva mas como constatação de um facto indesmentível, que os professores que a elaboraram são ignorantes, incultos e que não sabem pensar nem escrever. 

3 - A Prova Escrita 623/ 1ª fase de História A do 12º ano de escolaridade apresenta os habituais sinais de ininteligibilidade que os habitués conhecem como “os disparates do costume”: documentos que nada documentam (GIVD1), documentos que documentam tudo menos o que os examinadores pretendem que documentem (GIVD2) e documentos que ninguém percebe o que documentam (GIIID4); neste particular, em relação aos citados “disparates do costume” haverá apenas a salientar o GIIID1 que mais do que um documento consegue ser um tri-documento tri-disparatado. 

4 -  Se, até aqui, seria apenas “business as usual”, este ano os examinadores excederam-se com a pergunta de desenvolvimento GIII5. É conhecido que os conteúdos do Secundário estão divididos em “conteúdos estruturantes”, oficialmente referidos como tal e conteúdos não-estruturantes, oficiosamente assim considerados todos os outros, os que não têm dignidade para ascender à categoria anterior. O primeiro comentário sobre o GIII5 é que trata de um conteúdo de tipo novo: o conteúdo ausente. 

5 - Na verdade, as “prioridades económico-sociais do regime nazi” não fazem parte dos milhares de páginas que os alunos do Secundário têm de ler. Não é um conteúdo estruturante nem não-estruturante; é, pura e simplesmente, um não-conteúdo. De seguida, pede-se o mesmo para a RFA. Aqui, já não é um conteúdo estruturante, não-estruturante ou ausente: é um conteúdo “suponhamos”. O que os alunos estudam é a Europa Ocidental do segundo pós-guerra. Seria como pedir para os alunos desenvolverem o conteúdo “os impactos económico-sociais dos Descobrimentos na Beira-Baixa”. 

6 - Os enunciados dos exames são públicos; os respectivos critérios de correcção também. E, quando vemos os ditos critérios de correcção, faz-se luz: é tudo ainda mais negro! Afinal, o ”económico-social” da pergunta de desenvolvimento não era bem isso; não é béclair é éclair, quer-se dizer é económico, mas também pode ser social, quer-se dizer é assim no global, estão a ver, económico-social é apenas uma maneira de dizer, é preciso ver o texto para além do texto, o que eu realmente queria era umas calças… 

7 - Muitos esclarecimentos estão para vir. Vai valer tudo. Até o papel da vitória da RFA no Mundial de Futebol de 1954 na prosperidade alemã do segundo pós-guerra vai valer uns pontinhos, se alguém confundir Friedrich “Fritz” Walter com Konrad Audenauer será perdoado. Mas, na minha modesta opinião, a verdadeira pedagogia seria atribuir a pontuação máxima a quem não tiver escrito uma única palavra na resposta à pergunta de desenvolvimento. E pontuação máxima e um bónus a quem tiver escrito “F**********” ou palavras de conteúdo estruturante equivalente. 

8 - O Livro de Reclamações seguiu para as respectivas autoridades; depois, reclamante e dono da pastelaria receberam os devidos e doutos pareceres. O empregado foi despedido.
Um momento de compaixão, por piedade: algures num canto obscuro do rectângulo, quando a pátria, em transe, celebra feitos dignos dos heróis que, cavalgando os oceanos, ofereceram ao mundo continentes inteirinhos para pilhar, há um homem que chora, triste e sozinho, por não ser doutor

"Let’s be clear. The global economy is not working for the majority of people in our country and the world. This is an economic model developed by the economic elite to benefit the economic elite. We need real change" (aqui via VB)

... quem é que também já tem náuseas quando ouve a expressão "estamos a falar de..." *, em piloto automático?

* sucessora contemporânea da já vetusta "então é assim..." e da ainda activa "lá está..."

29 June 2016

Laurie Anderson - Top 10 books

Và lá, tenham tomates, paguem apenas 99 cêntimos!

O Salvador

(daqui)

(lyrics)
A marabunta (VI)

... sente-se injustiçada, coitadinha, e não sabe escrever: não é "este injusto caso se alastra", é "este injusto caso alastra".
Nunca ninguém disse que o 44 
tinha um pingo de vergonha na cara
Zamir Chorale - "Give Me Your Tired, Your Poor" (Emma Lazarus/Irving Berlin)

28 June 2016

A LIBERDADE ILUMINANDO O MUNDO


Pedro vive com 9 irmãos numa espelunca de paredes de cartão e janelas sem vidros onde o pai o espanca se ele se atreve a dizer que está cansado demais para mendigar. Pedro sonha com o dia em que será capaz de matar o velho e dedicar-se ao “dealing on the dirty boulevard”. Do outro lado, no Lincoln Center, estreia uma ópera à qual as “movie stars arrive by limousine” mas “the lights are out on the mean streets, a small kid stands by the Lincoln Tunnel selling plastic roses for a buck” e “the tv whores are calling the cops out for a suck”. E, como um fantasma cruel que paira sobre o "Dirty Boulevard" da New York (1989), de Lou Reed, escutam-se as palavras “Give me your hungry, your tired, your poor, I'll piss on 'em, that's what the Statue of Bigotry says, your poor huddled masses, let's club 'em to death and get it over with and just dump 'em on the boulevard”. Se, hoje, fosse viva, Emma Lazarus arrepiar-se-ia ao dar-se conta de como a História e o tempo obrigaram a que o seu poema, “The New Colossus”, fosse, inevitavelmente, desfigurado. Tradutora e poetisa, filha de emigrantes judeus sefarditas-ashkenazi de origem portuguesa e alemã, Emma escreveu em 1883 esse soneto com o objectivo de angariar fundos para a construção do pedestal da estátua da Liberdade, na Liberty Island, no porto de Nova Iorque.


Dedicava-se, por essa altura, ao auxílio a refugiados judeus em fuga dos "pogroms" anti-semitas na Europa de Leste. A eles dirigiu as palavras dos cinco versos finais do soneto que acabaria inscrito numa placa, na base da estátua: “Give me your tired, your poor, your huddled masses yearning to breathe free, the wretched refuse of your teeming shore. Send these, the homeless, tempest-tost to me, I lift my lamp beside the golden door!”. Irving Berlin adaptou excertos do poema no "musical" Miss Liberty (1949), no cinema, surgiria em Hold Back the Dawn (1941), um ano depois, em Saboteur, de Alfred Hitchcock, e, recitado em português, em Cristóvão Colombo – O Enigma (2007), de Manoel de Oliveira. Quando Lou Reed o repescou para "Dirty Boulevard", o acolhimento que os EUA de Ronald Reagan ofereciam às “tired, poor, huddled masses” estaria longe de ser exemplar mas seriam precisas quase três décadas até se atingir o grau supremo de selvajaria de que Donald Trump é o arauto. E, uma vez mais, “The New Colossus” foi chamado ao debate, pela mão de Andrew Bird. Em "Saints Preservus", do recente Are You Serious, acidamente, apela: “Bring me your poor and your trembling masses, bring them here, to shelter in your substructure parking lot”.
Uma perguntinha só: e quem vos obrigou, patrões e sindicatos, xoninhas da treta, a permanecer na sala e a falar com meliantes mal educados (que nem sequer sabem se eram mesmo do FMI) em vez de os mandar à merda e bater com a porta?

"Entre os sete elementos do FMI que deveriam estar presentes no Conselho Económico e Social (CES), em Lisboa, compareceram apenas dois que, segundo os parceiros, nada disseram, não se apresentaram, tomaram notas, e que apenas falaram para colocar uma questão: 'Qual a opinião dos parceiros sociais sobre a redução do investimento em Portugal?'". (aqui)

... mas também pode aparecer nesta versão:


O 44 e o Relvas, coitados, é que sabem como isso pode ser terrível...
The Unthanks – "Mount The Air"

27 June 2016

Bolsa de apostas (II)

Quantas primeiras páginas, amanhã, com "Brexit"?

... aliás, já começou: I, II...
Levou cinco anos mas nada é impossível quando a fé é muita e os investidores são generosos - importando ou não o original, reformule-se uma proposta já antiga que continua à espera de um empreendedor com visão e guito (tema para meditação: o velho bêbedo que não podia ser visto em pêlo 20 a 28)

Ó Chiquinho, então tens aí para vários séculos de pedidos de desculpa... (não contando, claro, com o tempo que vai ser necessário para convencer um porradão de funcionários da Vaticano S.A.)

24 June 2016

A cena patética do ano adquire o estatuto instantâneo de clássico pacóvio eterno ao descobrir-se que o sopinha de massa imagina que o Nietzsche era pai dele (chamada de atenção aqui)

Estar fora da UE não é garantia de melhor qualidade de vida

"A rainha Isabel II [descendente directa de Adão e Eva] vai à Irlanda do Norte e Escócia na próxima semana" (aqui)

Europeus comuns *


Paul Simon - "Wristband"


I stepped outside the backstage door to breathe some nicotine
And maybe check my mailbox, see if I can read the screen
Then I heard a click, the stage door lock I knew just what that meant
I'm gonna have to walk around the block if I wanna get it in

Wristband, my man, you've got to have a wristband
If you don't have a wristband, my man, you don't get through the door

I can explain it, I don't know why my heart beats like a fist
When I meet some dude with an attitude saying "hey, you can't do that, or this"
And the man was large, a well-dressed six-foot-eight
And he's acting like Saint Peter standing guard at the pearly...

Wristband...

And I said "Wristband? I don't need a wristband
My axe is on the bandstand, my band is on the floor"

Wristband...

The riots started slowly with the homeless and the lowly
Then they spread into the heartland towns that never get a wristband
Kids that can't afford the cool brand whose anger is a short-hand
For you'll never get a wristband and if you don't have a wristband then you can't get through the door
Except when it kills you

(cena patética do ano: o sopinha de massa citando Nietzsche)
Portanto, o JMF volta 

22 June 2016

Ensemble Caprice - "La Folia" 
(Andrea Falconieri, 1585 - 1656)

CIDADES (XLV)

Lisboa, Portugal, 2016







Anywhen - "The Siren Songs"
AFINAL, NÃO É ESTRANHO

  
Primeiro, escuta-se uma "bent note" tocada no "gopichand" – um instrumento asiático de uma só corda – que, sem que nos apercebamos, se transforma em uivo de lobo. Após dez segundos de uma intrincada teia de universos rítmicos sobrepostos (que persistirá e se adensará até ao final), a voz canta: “Milwaukee man led a fairly decent life, made a fairly decent living, had a fairly decent wife, she killed him… ahhh, sushi knife, now they’re shopping for a fairly decent afterlife... the werewolf is coming”. E, alçada nessa metáfora do lobisomem, enquanto sopros, percussões e electrónica se preparam para ceder o lugar aos acordes de um orgão de "horror movie", mostra-nos o fim do mundo: “Life is a lottery, a lot of people lose, and the winners, the grinners, with money-colored eyes, eat all the nuggets, then they order extra fries (...) You’d better stock up on water, canned-goods off the shelves, and loot some for the old folks, can’t loot for themselves”. Acabámos de escutar o tipo que, há quase meio século, escreveu “Can you imagine us, years from today, sharing a park bench quietly? How terribly strange to be seventy”


Afinal, não tem nada de estranho e, à beira dos 75 anos, Paul Simon (ele, perante quem Andrew Bird, Vampire Weekend, Dirty Projectors e Merrill Garbus/tUnE-yArDs ajoelham), muito longe de enganar as horas em bancos de jardim, ocupou-se a criar um dos mais ricos e audaciosos álbuns da sua discografia. A companhia (Nico Muhly, yMusic, Jack DeJohnette, Vincent Nguini, Cristiano Crisci/Clap! Clap!) foi inspiradora e as fontes de alimentação (Harry Partch, Laurie Anderson, a história e a política americanas) suficientemente estimulantes para que Stranger To Stranger se deixasse construir enquanto assombroso objecto multifacetado que tanto devora um "sample" do Golden Gate Quartet e compõe em torno dele como autoriza que uma balada sofisticadamente simoniana seja amavelmente trespassada pelos "cloud chamber bowls", "chromelodeons" e "zoomoozophones" de Partch. Apontado à terra (“The riots started slowly with the homeless and the lowly, then they spread into the heartland”) ou ao imaginário Além (“God goes fishing, and we are the fishes, he baits his lines with prayers and wishes”) mas com destinatários bem identificados: “I make my verse for the universe and my rhyme for the universities”.

21 June 2016

Mais uma candidata "passionada pelas cartas" que o ex-"sit-down comedian" seguramente aprovaria

Olha lá, ó sopinha de massa: o que eu senti aos 79 minutos do Portugal-Aústria até foi muito bom - estava numa sala de cinema (com projecção praticamente privada, é a grande vantagem do eurocoiso) a ver um belíssimo filme, Love Is Strange! Por que raio imaginas que toda a gente é igual e te sentes na obrigação ("it couldn't have been otherwise" ?!!!...) de ser querido e fofinho a pretexto da porra da bola?

(aos 3'46")
Food For Thought (XLII)

"(...) A questão é que a UE e as suas instituições se transformaram na tropa de choque do poder financeiro mundial e da ideologia neoliberal e, apesar das suas juras democráticas, impõem a agenda asfixiante da austeridade e proíbem de facto os países de prosseguir políticas nacionais progressistas mesmo quando elas são a escolha democrática dos seus povos. (...) 

A questão é que a UE, autoproclamado clube das democracias e dos direitos humanos, acolhe no seu seio sem um piscar de olhos países que desrespeitam os direitos mais básicos e adopta no plano internacional a Realpolitik de se submeter aos mais fortes, obedecer aos mais ricos e fechar os olhos aos desmandos dos mais agressivos. 

A questão é que a UE perdeu o direito de reivindicar qualquer superioridade moral quando continuou a atirar refugiados para a morte mesmo depois de ter chorado lágrimas de crocodilo sobre a fotografia de uma criança afogada no Mediterrâneo. 

Hoje, tenho vergonha de pertencer a este clube e não gosto desse sentimento. Será isto isolacionismo? Pelo contrário. O que eu e muitos cidadãos europeus exigimos é a solidariedade entre países que a União se recusa a praticar. 

Há pessoas pouco recomendáveis do lado do “Brexit”? Há. Mas do outro lado também. E na UE não faltam pessoas pouco recomendáveis, a começar pelo senhor Jean-Claude Juncker, símbolo da evasão fiscal e da imoralidade política. 

A questão é que a União Europeia não é a Europa dos valores que sonhámos. A UE capturou essa Europa e transformou-a num bordel. O sonho transformou-se num pesadelo. A questão é que a União Europeia se tornou o ninho da serpente e deve ser desmontada peça por peça. Espero que o referendo britânico possa ser o primeiro passo" (daqui)
(daqui)

20 June 2016

"In December 1950, Woody Guthrie signed his name to the lease of a new apartment in Brooklyn. Even now, over half a century later, that uninspiring document prompts a double-take. Below all the legal jargon is the signature of the man who had composed 'This Land Is Your Land', the most resounding appeal to an equal share for all in America. Below that is the signature of Donald Trump’s father, Fred. No pairing could appear more unlikely (...)" (daqui)

Simon and Garfunkel - "Old Friends/Bookends"

Blá blá blá e só blá blá blá!... Quando é verdadeiramente preciso erguer o nobre p.o.v.o. contra a vil humilhação dos nossos heróis, rabinho entre as pernas e nem um pio! Vaaargonha...


A minha "paixão pela selecção" é exactamente como o ben-u-ron: tendo em consideração as várias contra-indicações (em especial, as por uso prolongado), será preferível não tomar; e, sobretudo, "para sempre" é que nem pensar!
O "Público" é que podia dar uma ajudinha à SIC e sugerir a substituição por outra profissional do ramo, das várias, competentíssimas, que conhece
Andrew Bird - "Saints Preservus"

18 June 2016

... e, depois de George Orwell, o Jorge Olaré! ("nom de plume" do Capelão Magistral)
"(...) Conheço bem demais a questão que periodicamente os intelectuais do futebol, que há muitos, trazem para justificar tudo: o futebol iguala os ricos e os pobres na mesma Saturnália emocional e irracional, uma espécie de espasmo, para não lhe chamar outra coisa, colectivo, que revela a 'alma' de um povo que, de um modo geral, está dividido e desalmado. (...) Indiferentes à sucessiva entrega de Portugal às fatias aos angolanos e aos chineses e mesmo aos espanhóis, fazendo de conta que não vêem que já somos governados por gente em que não votamos e que não controlamos e que não responde perante os portugueses, guardamos a nossa fanfarronice para a bola salvífica. (...) Não quero, nem muito menos podia se quisesse, tornar diferente o mundo do futebol. Mas ao menos que paguem o preço da crítica, aqueles para quem a crítica ainda tem algum papel. Não são muitos, nem adianta muito, mas pelo menos que se saiba e se diga, que os media deixam nestes dias de ser media para serem uma sucursal do Entretenimento Inc., e que participam alegremente numa operação de dopagem colectiva que empobrece o país. O exagero absoluto que já tem pouco a ver com o que se passa no jogo, para se tornar 'reality show' permanente, tão adictivo como um químico. George Orwell, que percebia destas coisas, escreveu: 'Futebol, cerveja e acima de tudo o jogo, enchiam o horizonte das suas mentes. Mantê-los controlados não era difícil'. Nestes dias de bola, percebe-se que não é" (JPP)

16 June 2016


LNZNDRF - "Mt. Storm"

Max Martin? O "pimp" de dezenas de "hookers"? O Polar Music Prize já viu melhores dias...
Bolsa de apostas (I)

Com a Islândia, claro, foram o "gelo" e o "congelamento" (aliás, em matéria afim de "metáforas sobre fiordes, vulcões e glaciares", é coisa não-exclusiva da subespécie do jornalismo desportivo). Contra a Áustria, há uma forte possibilidade de chover poesia parola acerca de "valsas". Já no caso da Hungria, parece demasiada ambição que alguém se lembre de "czardas" ou de "Bela Bartók".

Maxim Vengerov - "Czardas"

15 June 2016

Culture clash

(daqui)
... são as alterações climáticas, pá...



... e o imaginativo jornalismo da bola
Marcelo, pá, não és presidente, nem ex-"stand-up comedian", nem és nada se não apresentas já um violento protesto diplomático na embaixada do Reino Unido contra estes tratantes que ousam dizer tais enormidades do nosso menino mailindo!...



Richard & Linda Thompson - "Wall of Death"
NÃO FICÇÃO

   
“Used to be so wilfully obtuse, or is the word abstruse? Semantics like a noose, get out your dictionaries, I’m gonna cut to the quick, this is all non-fiction, words you beat with a stick, these are my true convictions”. Considerem estas palavras da canção que dá o título a Are You Serious, último álbum de Andrew Bird, como uma hipotética autocrítica ou, talvez, uma declaração de intenções para o futuro. Traduzindo-as em entrevista à “Vinyl Me, Please”, Bird explica-se melhor: “O que procuram, realmente, as pessoas nas canções pop? Desejam alguém que sofreu de verdade, que se trate de algo autobiográfico ou existe espaço para a irreverência presente em todas as formas de arte excepto na escrita de canções?” Poder-se-lhe-ia responder imediatamente apenas com duas palavras: Stephin Merritt. Mas, na verdade, seria preciso não notarmos que, por muito não-ficcionais que elas sejam e que – tal como já no anterior Break It Yourself (2012) – o esforço de controlo do "wordplay" tenha sido titânico, Andrew dificilmente consegue escapar à sua natureza profunda. 

(noutra versão aqui)

Basta reparar, por exemplo, em "Saints Preservus", na qual, comete a proeza de citar, distorcendo, "Amazing Grace" (“I once was found but now I’m lost”), o soneto de Emma Lazarus, "The New Colossus", gravado no pedestal da estátua da Liberdade (“Bring me your poor and your trembling masses, bring them here, to shelter in your substructure parking lot”), e Stranger in a Strange Land, de Robert Heinlein (“I am a stranger in a land that’s anything but strange”). Ou, em "The New Saint Jude" – santo padroeiro das causas perdidas –, o Evangelho de Mateus (“Come on all you stand-up men, you self empowered go-getters”), transformado em pretexto para a apologia do pessimismo (“Ever since I gave up hope I’ve been feeling so much better”) e da misantropia (“Here’s a mighty revelation that’s sure to cure what ails you, that everyone’s a disappointment and everyone’s a failure”). Como sempre, mesmo que com nova equipa de músicos, a moldura sonora é detalhada, contrapontística, melodicamente rica, canções sobre a escrita de canções (a óptima "Left Handed Kisses", com Fiona Apple), o voyeurismo e a radioactividade, urdidas por quem se deixa inspirar “por lugares como a Holanda, Lisboa e Barcelona, onde os velhos observam as cidades, à janela”

13 June 2016

12 June 2016


(daqui)
Por este andar, o ex-"sit-down comedian" já ganhou o prémio conjunto Les portugais sont toujours gais (LXIV)/A joke a day keeps the doctor away (LII) de 2016

Tópico para reflexão: a ser verdade que "Somos grandes, os portugueses, porque nos fizemos sempre contra o vento e contra a chuva", os holandeses, britânicos, suecos, finlandeses, etc., não serão um bocadinho maiores, contrariando assim, afirmações anteriores?
Atenção Fernando Medina: criar o prémio "Alfacinha" e entregar o primeiro à Belinha
 
"Vale a pena a gente perder tempo com as inanidades que por aí se escrevem sobre 'fascismo' e 'comunismo', ainda por cima supostamente 'demonstradas', como diz José Rodrigues dos Santos, num livro de ficção? Vale e não vale. Do ponto de vista intelectual e argumentativo, não vale. Nem são novas, nem são informadas, nem são interessantes, nem nada. O que vale é usá-las para mostrar o que elas significam: a possibilidade de, em 2016, se proferirem inanidades em público para voltar a uma variante de anticomunismo que a radicalização da vida política à direita precisa à falta de melhor para combater a 'geringonça' (...)" (JPP, 2ª parte deste texto)

10 June 2016

Portugal (ou a pátria ou lá o que é) numa casca de noz (XXXIX)

 

(produção conjunta de) Les portugais sont toujours gais (LXII)/A joke a day keeps the doctor away (L) 


"Patriotism ... is a superstition artificially created and maintained through a network of lies and falsehoods; a superstition that robs man of his self-respect and dignity, and increases his arrogance and conceit" ― Emma Goldman

"In every age it has been the tyrant, the oppressor and the exploiter who has wrapped himself in the cloak of patriotism, or religion, or both to deceive and overawe the people" ― Eugene V. Debs

"Unhappy the land that is in need of heroes" ― Bertolt Brecht

"How does one hate a country, or love one?... I know people, I know towns, farms, hills and rivers and rocks, I know how the sun at sunset in autumn falls on the side of a certain plowland in the hills; but what is the sense of giving a boundary to all that, of giving a name and ceasing to love where the name ceases to apply? What is the love of one's country; is it hate of one's uncountry? Then it's not a good thing" ― Ursula K. Le Guin

"There has seldom if ever a shortage of eager young males prepared to kill and die to preserve the security, comfort and prejudices of their elders, and what you call heroism is just an expression of this simple fact; there is never a scarcity of idiots" ― Iain Banks

"I'm no more modern than ancient, no more French than Chinese, and the idea of a native country, that is to say, the imperative to live on one bit of ground marked red or blue on the map and to hate the other bits in green or black, has always seemed to me narrow-minded, blinkered and profoundly stupid" - Gustave Flaubert

"Man is the only patriot. He sets himself apart in his own country, under his own flag, and sneers at the other nations, and keeps multitudinous uniformed assassins on hand at heavy expense to grab slices of other people's countries, and keep them from grabbing slices of his. And in the intervals between campaigns, he washes the blood off his hands and works for the universal brotherhood of man, with his mouth” - Mark Twain


"Every miserable fool who has nothing at all of which he can be proud, adopts, as a last resource, pride in the nation to which he belongs; he is ready and glad to defend all its faults and follies tooth and nail, thus reimbursing himself for his own inferiority" – Arthur Schopenhauer

"Patriotism is the passion of fools and the most foolish of passions" – Arthur Schopenhauer

"Patriotism corrupts history" – Goethe

"Into the cultural and technological system of the modern world, the patriotic spirit fits like dust in the eyes and sand in the bearings. Its net contribution to the outcome is obscuration, distrust, and retardation at every point where it touches the fortunes of modern mankind" – Thorstein Veblen

"At the bottom of all patriotism is war: that is why I am no patriot" – Jules Renard

"He who joyfully marches to music rank and file has already earned my contempt. He has been given a large brain by mistake, since for him the spinal cord would surely suffice. This disgrace to civilization should be done away with at once. Heroism at command, senseless brutality, deplorable love-of-country stance and all the loathsome nonsense that goes by the name of patriotism – how passionately I hate them!" – Albert Einstein

"Patriotism is a kind of religion; it is the egg from which wars are hatched" – Guy de Maupassant

"God and Country are an unbeatable team; they break all records for oppression and bloodshed" – Luis Buñuel


"A patriot is a fool in every age" – Alexander Pope

"Patriotism is the last refuge of the scoundrel" – Samuel Johnson 

"In Dr. Johnson’s famous dictionary, patriotism is defined as the last resort of a scoundrel. With all due respect to an enlightened but inferior lexicographer, I beg to submit that it is the first" – Ambrose Bierce 

"Patriotism is as fierce as a fever, pitiless as the grave, blind as a stone, and irrational as a headless hen" – Ambrose Bierce

"That pernicious sentiment, 'Our country, right or wrong'" – James Russell Lowell 

"Patriotism is your conviction that this country is superior to all other countries because you were born in it" – George Bernard Shaw 

"Patriotism is the virtue of the vicious" – George Bernard Shaw 

"You’ll never have a quiet world till you knock the patriotism out of the human race" – George Bernard Shaw 

"Patriotism is a pernicious, psychopathic form of idiocy" – George Bernard Shaw 

"One of the great attractions of patriotism – it fulfills our worst wishes. In the person of our nation we are able, vicariously, to bully and cheat. Bully and cheat, what’s more, with a feeling that we are profoundly virtuous" – Aldous Huxley

09 June 2016

Homo floresiensis antepassado

MANUAL DE PINTURA


É oficial: aos 37 anos, o cidadão neo-lisboeta, Noah Lennox, sente-se um ancião pop. E, embora não tendo perdido o gosto pela experimentação e pela exploração de abordagens diferentes para a música que, com o neo-angeleno, David Portner, e o neo-washingtoniano, Brian Weitz, cria nos Animal Collective, já lhe sobra pouca paciência para a rotina de gravação-promoção-concertos que o modus operandi da indústria discográfica impõe. Até porque, pelo meio disso, ainda se vê obrigado a lidar com o "hype" e as fantasias dos media, capazes de ficcionar vários universos a partir de um humilde átomo. Nada, porém que o impeça de ter publicado Painting With, o décimo álbum da banda – para além de peças em nome individual –, e de embarcar no carrocel de uma extensa tournée que passará pelo Primavera Sound, do Porto.
 
Um décimo álbum parece um óptimo pretexto para uma reflexão sobre a trajectória dos Animal Collective...
Essencialmente, tenho-me apercebido de como o passado permite ver o presente com outras cores e também como é cada vez mais difícil não nos repetirmos e continuar a fazer coisas novas. Temos de nos forçar a descobrir outros espaços. É um desafio de que gosto mas não deixa de ser um desafio.
 
Têm uma noção do lastro que foram deixando para trás e daquilo que ganharam?
A percepção que temos das coisas muda. A ideia que fazemos de um álbum e a de quem o escuta vai transformando-se muito. Quando Strawberry Jam saiu, a reacção do público foi um bocado morna. Agora, parece ser um dos preferidos. Claro que com a Internet tudo mudou mas, talvez, passados vinte ou trinta anos, possa avaliar-se um disco da forma mais objectiva possível, com o mínimo de ruído à volta.

Centipede Hz, de há quatro anos, parece ter-se tornado a vossa ovelha negra...
Ou mesmo também este último. Foi a primeira vez que sentimos que tínhamos detractores. Não porque pensássemos que havíamos feito algo errado mas por nos darmos conta de que não estávamos alinhados com as expectativas que existiam em relação a nós. Sendo uma banda que não vive para agradar facilmente ao público, pomo-nos um bocado a jeito para estas reacções. Mas vamo-nos habituando.
 
Painting With é o primeiro álbum a não ter sido tocado ao vivo antes de irem para estúdio. Foi uma mudança deliberada ou aconteceu assim devido à dispersão geográfica dos elementos do grupo?
Uma das razões foi, precisamente, porque nunca o tínhamos feito antes e estávamos com curiosidade de ver o que resultava. Mas, como vimos de uma cultura que cultiva a partilha de gravações de concertos, muitas vezes, a versão das canções que predominava era a de palco e o que registávamos em estúdio era apenas um reflexo pálido disso. Apeteceu-nos, por isso, inverter o processo, tornar a versão de estúdio na primeira impressão e na imagem ideal que se tem das canções.
 
Acerca da gravação do álbum proliferaram as “lendas” de projecções psicadélicas de imagens de dinossauros em estúdio, "FloriDada" puxou associações dadaístas...
É um típico caso de os media inventarem uma história a partir de coisa nenhuma. É interessante verificar o que, por exemplo, numa entrevista, se selecciona como destaque. Aquilo que, para nós, foi apenas o desejo de criar um ambiente divertido para trabalhar e não teve qualquer impacto na música, foi convertido numa coisa importantíssima!


 
Também foi sublinhado o facto de terem ido gravar nos EastWest Studios onde Pet Sounds nasceu...
Foi só uma coincidência e um recurso de última hora. Os estúdios para os quais planeáramos ir, por um equívoco de datas, não estavam disponíveis e tivemos de ir para esses. Claro que foi óptimo estarmos ali, como se visitássemos um museu onde o Marvin Gaye e o Frank Sinatra trabalharam. Mas o mais importante é que o que ali se grava soa maravilhosamente. Foi um contratempo que teve excelentes consequências.
 
Em Painting With o jogo da sua voz com a do David Portner funciona como um elemento fundamental... como desenvolveram essa técnica de pergunta e resposta, por vezes, silabicamente, que aplicaram aqui?
Quando começamos a compor, temos sempre imensas ideias acerca de que equipamento usar, que tipo de abordagem escolher... no final, só cinco ou seis acabam por sobreviver. É um processo de selecção natural. Desta vez, uma dessas foi a intenção de criarmos música para duas vozes, em contraponto, em plano de igualdade. De tal modo que, se retirássemos uma delas, alteraria por completo a canção. Não é, de todo uma ideia nova, o "hoquetus" já era utilizado na música medieval embora não exactamente da forma como o fazemos.
 
A escolha do aeroporto de Baltimore para o lançamento do disco foi uma vénia à Music For Airports, do Brian Eno?
(risos) Não. Actualmente, é praticamente impossível descobrir um local onde, quando um disco sai, toda a gente possa escutá-lo ao mesmo tempo. Queríamos apresentá-lo de um modo especial, num sítio onde ninguém estivesse à espera de ouvir aquela música: pensámos fazê-lo num centro comercial, durante um jogo de futebol mas o aeroporto acabou por ser a solução logisticamente mais fácil.


A participação de John Cale ocorreu por procurarem algo específico que só ele poderia trazer ou tratou-se de uma homenagem a ele e aos Velvet Underground?
Somos todos fãs da música de John Cale e dos Velvets mas, na realidade, a razão foi um pouco mais funcional. Em "Hocus Pocus", o Brian tinha utilizado um "sample" de cordas cuja sonoridade não nos satisfazia. Sabíamos que o John Cale vive em Los Angeles e que a Abby, irmã do Dave, tinha trabalhado com ele. Pensámos, então, em pedir-lhe que tocasse viola de arco nesse tema. Não foi isso que, finalmente, aconteceu mas ele trouxe uma enorme quantidade de equipamento electrónico. Passámos mais de meio dia a experimentá-lo!
 
O que sente quando a "Pitchfork" vos qualifica como “avant pop institution”?
O que me sinto é velho... (risos) Tenho 37 anos. Vejo-me a fazer música até morrer mas não sei quanto mais tempo serei capaz de aguentar o circuito de gravações, entrevistas, um ou dois anos de concertos... há um prazo de validade para isso.